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Defendendo o gerúndio

Confira a coluna 'Nossa língua sem segredos ', do professor João Alvarenga

Neste artigo, vou estar defendendo o gerúndio, essa forma peculiar de expressão que se faz presente, de forma intermitente, na coloquialidade brasileira, mas que é pouco compreendida e se tornou alvo de muitos equívocos. Com certeza, o leitor que tem um contato mais estreito com as regras da língua portuguesa, ou que utiliza o idioma como ferramenta de trabalho, deve ter estranhado, e muito, o arranjo verbal “vou estar defendendo” que abre este texto.

Aliás, construções dessa natureza se tornaram objeto de fúria de muitos professores que ensinam redação, nos cursinhos, e até mesmo de quem não domina muito bem a norma culta, mas está atento aos eventuais deslizes dos falantes. Todavia, esse assunto é muito espinhoso porque há um desconhecimento, generalizado, dos mecanismos de emprego correto do gerúndio. Com isso, busca-se o banimento de tal recurso, nos textos, sem que haja uma justifica plausível.

Porém, para que não pairem dúvidas, tranquilize o coração, porque o emprego da chamada tríade verbal, ou seja, a presença dos três verbos: “vou” “estar” “defendendo”, comumente chamado de gerundismo, foi de propósito. Na verdade, fiz uma pequena provocação para promover, neste espaço, uma reflexão sobre o uso adequado do gerúndio na comunicação diária e principalmente nos textos. A ideia é identificar até que ponto o emprego dessa estrutura é lícito e quando esse arranjo começa a causar aborrecimentos aos utentes da língua.

Assim, brincadeirinhas à parte, antes de tudo, é preciso elucidar que, de acordo com a norma culta vigente, o gerúndio é uma FORMA NOMINAL do verbo, ou seja, uma forma verbal que não possui flexão de tempo e modo. Por conseguinte, o verbo perde algumas características de verbo e adquire aspectos de nome (substantivo, adjetivo ou advérbio), o que faz jus à classificação de “forma nominal”. Estruturalmente, o verbo no gerúndio é composto pela raiz do verbo + NDO. Exemplos: PARTI = part + ndo = partindo; CORRER = corr + ndo = correndo; AMAR = am + ndo = amando.

É preciso observar, também, que os professores de Português, entre eles, a mestra Ana Paula de Araújo, do site “Infoescola!”, são unânimes em destacar que a principal característica do gerúndio é: indicar uma ação contínua, não conclusa, porque é uma ação que “está”, “esteve” ou “estará” em andamento, ou seja, um processo verbal não finalizado. Além disso, é bom que se diga que os gramáticos, entre eles Joaquim Matoso Câmara Júnior, chamam a atenção para o fato de que o gerúndio, quando empregado adequadamente, não representa nenhum pecado, uma vez que se trata de uma forma previsível na língua.

Como exemplo de bom uso do perseguido gerúndio, temos: “Estive pensando no que você me falou…”. A referida construção, segundo o gramático Rocha Lima, evidencia uma ação que não se efetivou. Outro uso lícito do gerúndio, destacado pelos gramáticos, indica uma ideia de ações simultâneas: “Enquanto eu explicava, vocês estavam conversando.” Ou ainda: “Estávamos concluindo nossa árdua tarefa…”, em que se o utiliza o tempo composto, com o verbo auxiliar “estar”. Também pode ser expresso assim: “Concluindo sua parte do projeto, entregue-o para Alfredo”. Nesse exemplo, o verbo “concluir” aparece na forma de gerúndio e atua como advérbio de tempo.

Porém, esse assunto, além de um confuso, gera controversas entre os estudiosos da língua, pois muitos contestam o uso exagerado de tal construção, principalmente no que se refere às dissertações de vestibular, em que a banca faz uma rigorosa correção em observância à norma culta. Nesse contexto, o emprego excessivo do gerúndio nos textos dissertativos passa a ser considerado um vício de linguagem, em construções como: “O pesado caminhão, após parar no cruzamento, pôs-se em marcha, desenvolvendo baixa velocidade, levando a vítima a tentar a ultrapassagem, acelerando sua motocicleta, a fim de passar pela frente do caminhão, esperando que ele parasse”.

Quanto ao exemplo acima, Matoso Câmara destaca que há: “o encadeamento de gerúndios, quando um se subordina ao outro”, algo que os professores de texto qualificam de prática desastrosa numa dissertação, porque não ajuda na progressão temática e dá margens a possíveis erros de concordância, além de deixar o período confuso.

Outro exemplo negativo, muito presente em redações de alunos: “A tecnologia vem crescendo e promovendo uma mudança de comportamento na sociedade, que vem se ajustando…”. Aqui, a crítica é cabível porque o arranjo não garante boa fluidez à frase, além de conferir uma ideia de inércia, algo inimaginável em textos jornalísticos.

Para tonar mais nítido o quanto o gerúndio causa desastres aos textos, imaginemos a seguinte situação: um temporal destruiu a ponte de uma estrada que liga duas cidades. E o repórter redige: “O Ministério de Transportes está estudando um novo projeto para restaurar a ponte…” Nesse caso, os usuários da estrada terão que ou ter muita paciência ou, então, encontrar um caminho alternativo. Afinal, isso demorará uma eternidade, pois os responsáveis pelo restauro da ponte perderão muito tempo para estudar um suposto projeto. Perceberam como essa questão é complexa?
Todavia, para quem acha que isso é tudo em termos de açoites na língua, nem imagina o quanto de problemas o gerúndio tem causado na comunicação diária. Construções como: “Vou estar enviando o relatório…” ou, ainda: “Ele vai estar atendendo à tarde…” são exemplos abomináveis, na língua, porque utilizam três verbos para expressar uma única ideia. Poderia ser dito: “Enviarei o relatório…” ou “Ele atenderá…” Porém, o coloquialismo admite.

Contudo, a fórmula da tríade verbal, embora não seja contemplada em Português, principalmente porque a construção utiliza o gerúndio depois de um verbo no infinitivo, tornou-se uma verdadeira febre nos serviços de telemarketing. Mas, se nosso idioma não convive em harmonia com o gerúndio, duas questões ficam no ar: 1) qual é a origem dessa construção?; 2) por que o emprego acintoso dos três verbos persiste?

Quanto à primeira dúvida, há muitas especulações sobre sua gênese. Recentemente, o escritor Luiz Fernando Veríssimo, num divertido artigo, neste jornal, atribuiu a paternidade do gerúndio à “gramática” brasileira, porque em Portugal, pelo que consta, diz-se: “Estou a falar sobre gramática” no lugar de “Estou falando sobre gramática”.

Para concluir esta reflexão, lanço mão de uma especulação para justificar o uso dos três verbos nos atendimentos telefônicos. A origem do problema estaria na forte presença da língua inglesa em nosso país, uma vez que o inglês admite construções como: We must continue doing our best — Nós precisamos continuar fazendo o nosso melhor. Ou ainda: You should keep trying. — Você deveria continuar tentando. Espero ter esclarecido alguns pontos duvidosos do incompreendido gerúndio. Até o próximo assunto!

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e, apresenta com Alessandra Santos, o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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