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De velhos natais

21 de Dezembro de 2019 às 00:01

De velhos natais Crédito da foto: Fábio Rogério / Arquivo JCS (11/12/2019)

Edgard Steffen

Recordo ainda... e nada mais me importa... Aqueles dias de uma luz tão mansa Que me deixavam, sempre, de lembrança, Algum brinquedo novo à minha porta...

Mario Quintana (A rua dos cataventos)

Mansa era a vida que rolava na pequenina Indaiatuba. Andar descalço pelas ruas de terra. Nos dias de chuva forte, em vez de amassar barro, andar pela sarjeta só para chutar a enxurrada, mesmo com risco de algum caco de vidro tirar lasca do dedão. Andar com os bolsos cheios de bolinha de gude para o jogo dos biros* cavados na terra. Colecionar, trocar figurinhas, jogar bafo. Ir ao cinema e vibrar com peripécias, socos, tiros e poeira dos faroestes. Jogar futebol de botão ou arriscar um futebolzinho fuleiro, com bola de meia ou borracha nos quintais e campinhos. Esborrachar o nariz contra a vitrine da Casa Nicolau para aguçar os quereres. Velocípedes, carrinhos de corda, cavalo de pau com sela azul e bridão dourado, jogos coloridos... Resistir quem há de? Como entender estarem fora do alcance dos bolsos? Sequer existia o décimo terceiro para loucuras de fim de ano.

Pensando bem, brinquedo era coisa de rico. De capitalista, de médico, de fazendeiro, de algum remediado metido a besta querendo fazer média com filho mimado. Objetos de desejo, durante o inteiro ano, eram coisas simples que se não compravam, se havia de ganhar. Felizes os filhos, netos ou sobrinhos de mecânico. Consertadores daquela meia-dúzia de automóveis e caminhões que circulavam pelas ruas. Felizardos podiam encher pneus de bicicleta ou bola de capotão sem ouvir resmungos. Ganhar rolimãs para construir toscos carrinhos com tábuas de caixotes e restos de marcenaria. Câmaras de ar rasgadas ou estouradas rendiam tiras de borracha para estilingues de caçar passarinho ou de guerrear com caroços de mamona.

O tempo corria devagar. Levava uma semana -- uma semana inteira, calculem! -- para a gente saber como o mocinho do seriado escaparia do trem que vinha sobre o herói imobilizado, amarrado aos trilhos pelo bandido malvado.

Manso era o silêncio. Ainda podia ser ouvido. Interrompido apenas pelo resfolegar e apito dos trens de ferro. Mansa a vida organizada, cheia de certezas, de religiosidade, de horários. Horários definidos por outros invasores do silêncio. Apitos das fábricas (chamando ao trabalho ou dizendo “por hoje, chega!”), sinos da igreja, sineta da escola. Alto-falantes da praça a indicar o início e o fim do footing nos sábados e domingos...

Mansa a certeza dos casamentos para todo o sempre. Das famílias estáveis, das visitas para o prazer do bate-papo sem medo de aborrecer ou novela a perder. Do velho fogão a lenha, das refeições em hora certa com todos em volta da mesa. Da conversação de passar o tempo ou para decisões da família.

Mansa e suave preparação do Natal. O artesão local Hermenegildo Pinto abria a sala de sua casa para que todos vissem o presépio, com figuras em movimento. Na igreja, preparos para representação do Advento. Montagem da árvore com bolas metálicas e pequenas velas de cera colorida. Por mais de uma vez elas incendiaram o desajeitado galho de araucária, versão tropical do cônico Pinus europeu. Poesias, coral das crianças. Ensaios ocupavam muitas noites de dezembro. Ninguém achava ruim ter de andar a pé desde o Capão Grande para os ensaios. Sentia-se a chegada do Natal sem que precisassem anúncios a lembrar o grande dia. Não nos incomodava a repetição exaustiva da “Noite feliz” de Gluber&Mohr nem nos agrediam jingles e jingobéis, em decibéis estridentes e repetitivos, como hoje.

Não tenho as dúvidas de Machado. Tanto eu como o Natal mudamos. Ou, como termina Quintana:

“Não vos iluda o velho que aqui vai! Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino... acreditai... Que envelheceu, um dia, derrepente!...

Absolvam-me da nostalgia e da pleonástica saudação. Para os que creem a data é intrinsecamente jubilosa.

Feliz Natal!

(*) Biros -- Buracos simetricamente cavados -- rodando o calcanhar sobre a terra -- para jogo de gude. Verbete não registrado nos dicionários. Creio tratar-se de gíria local; corruptela de buraco (?)

Sorocaba, Natal, 2019

Edgard Steffen é médico pediatra e escritor. E-mail: [email protected]