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De médicos e chamados

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul
De médicos e chamados
Crédito da foto: Emidio Marques / Arquivo JCS

Edgard Steffen

Sedare dolorem opus divinum est

Na feira da praça Frei Baraúna, encontrei-o. Carregava sacolas de frutas e legumes. Acompanhava a esposa em suas compras. Marcas do tempo eram visíveis no casal. Brinquei — Até que enfim domesticado, hein! Lembrei-me quando ele era ainda jovem. Não tendo tempo para atender chamado em Ibiúna, deleguei a tarefa àquele residente. Aceitou de pronto. Anos mais tarde, na integração do ambulatório do Inamps ao sistema único, constatei mães madrugando na fila para garantir aos filhos serem por ele atendidos. Como ainda exerce a pediatria, não revelo seu nome para não parecer jabaculê. Nem fui autorizado. Seu jeito de atender está embasado no que aprendeu na faculdade e na convicção de o exercício da medicina ser ato de amor ao próximo. Integra o contingente dos médicos que ainda guardam um pouco do que se convencionou chamar sacerdócio. Sedar o sofrimento alheio é trabalho divino.

O encontro com o pediatra despertou-me outras lembranças ligadas ao exercício da medicina. Quantos médicos comigo viajaram para atender minha família em Indaiatuba!? Por amizade e solidariedade. Foram vários. Não os nomeio para não incorrer no pecado da omissão.

Levou-me também às reminiscências de um tempo em que o médico era obrigado a atender urgências e emergências. Em 1957 duas situações difíceis para a região de Piedade/Tapiraí: pandemia de gripe asiática e excesso de chuvas. Perto das 16h, bananicultor nisei do Vale do Ribeira pediu-me fosse atender sua mãe. Tentara chegar a Juquiá ou Registro, mas a enchente interditara o trânsito. A velha senhora estava mal e não suportaria viagem de quase 100 km. Peguei minha maleta de emergência, alguns medicamentos e subi no jipão do homem. Muita chuva e muita lama, estrada cheia de curvas, pouca visibilidade, veículo deslocava-se na velocidade possível. Horas depois entramos no caminho do bananal. Nunca eu vira tanta bananeira. Levamos tempo para chegar ao grotão onde haviam instalado a sede da fazenda. Senhora magra, idosa, tinha febre alta e respirava com dificuldade. Não foi difícil o diagnóstico. Era mais um caso da gripe asiática. Além da provecta idade, outro fator adverso. Era doente de silicose, adquirida no Japão, quando trabalhara numa pedreira. A gripe pandêmica era agravo agudo. Mediquei-a. Recomendei, restabelecida a comunicação, fosse internada no Hospital Regional de Pariquera-Açu. O caminho de volta avançou madrugada a dentro. O chamado mais longínquo e duradouro em meu currículo.

Outros mais viriam somar. Em Sorocaba, exercendo a Pediatria, rodei por todos os bairros. Fui tirado da sala de aulas, do cinema, da arquibancada do Humberto Reale, de bailes nos clubes, das ceias de Natal e fim de ano.

Da igreja fui tirado uma vez. No meio do culto diácono avisou-me que estavam a minha procura. Queriam minha presença num hospital, em cidade distante 60 km. Havia um conflito — mais político que terapêutico — entre o obstetra e o pediatra sobre a conduta a ser tomada. A família pedira terceira opinião. Além de tenso, senti-me um estranho no ninho naquele hospital. Examinei o nenê, li os relatórios da enfermagem e as folhas de prescrição. Nenhum dos colegas estava completamente certo ou equivocado. Como acreditava (e acredito) que eflúvios dos conflitos e insegurança dos familiais influenciam negativamente as respostas do organismo infantil, propus remoção do paciente para Sorocaba. Longe dos embates, ajudado pelo amor familial, o menino rapidamente reagiu à terapêutica, começou a melhorar. Sarou.

Da senhora japonesa não mais tive notícia. A insuficiência respiratória era irreversível. Deve ter falecido no Hospital.

Reencontrei o menino vinte e poucos anos depois. Numa solenidade de formatura, recebeu o prêmio “Estudante do Ano” na Universidade.

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve para o Cruzeiro do Sul — edgard.steffen@gmail.com

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