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De longevos amigos

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Se queres ser feliz plante uma árvore, gere um filho, escreva um livro
(Ptah Hotep — filósofo do Antigo Egito — 2880 aC)

De elefantina memória, posso procurar freneticamente óculos levantados (e esquecidos) sobre a testa, mas lembro perfeitamente acontecimentos, duradouros ou fugazes, que me impactaram há muitos anos. Sei de cor o texto e guardo na mente a ilustração do livro utilizado na primeira aula de francês, no antigo ginásio (1942). Auxiliado pela “sabedoria instantânea” da internet, muitas vezes uso reminiscências no preencher deste espaço. Podem reputar-me saudosista. Garanto que não sou. Recordar é uma coisa, reviver é outra. Em minha vida Tempus fugit, carpem diem continua válido em consonância com o que está no Eclesiastes.

Colégio Estadual Regente Feijó de Itu (SP, 1949). Início do ano letivo. Vestindo terno azul-marinho, sapatos engraxados, camisa impecavelmente branca e gravata colorida, Firmino do Espírito Santo entra na sala. Afrodescendente retinto — qualificação não usada à época — sorriso largo de self made man cioso de sua condição de professor e estudante de Direito, faz a chamada e profere a primeira aula de Filosofia, matéria obrigatória no currículo do curso científico.

Analisa definições clássicas de Filosofia, inclusive aquela pragmática e materialista “ciência com a qual ou sem a qual se fica tal e qual”. Cita Ptah Hotep, governador de Menfis, na antiguidade egípcia. Dele, papiro com instruções para que o filho se dê bem e viva feliz, teria sido o primeiro escrito filosófico.

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Aquela aula aguçou minha curiosidade adolescente. Busquei em Will Durant* mais conhecimentos sobre o pensador egípcio. Das máximas, a que ilustra esta crônica é a mais conhecida e citada.

Ptah Hotep, pediu ao faraó licença para escrever a obra: “Meu Senhor, o fim da vida está perto; a velhice desce sobre mim; a fraqueza sobrevém (…) Os olhos diminuem, os ouvidos ensurdecem. (…) Permite dizer-lhe palavras ouvidas diretamente dos deuses…”.

Neste sábado completo 90 anos. Quis a Divina Providência que, na idade provecta, tive a visão recuperada da catarata pela competência de um afilhado cirurgião. Sorte minha, porque os ouvidos já não têm a acuidade doutrora. Mas os neurônios ainda permitem inserir-me no contexto.

Separo algumas instruções do proto-filósofo:

Teme fazer inimigos com tuas palavras.

Não repita um boato calunioso, não o ouça.

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Mui preciosa para um homem é o bom caráter de seu filho.

Quão maravilhoso é um filho que obedece a seu pai!

Se queres ser prudente, cuida da tua casa e ama a tua mulher.

Se te tornares poderoso, faze-te honrado pela ciência e pela bondade

Aos que seguirem seus preceitos

… bênçãos cairão sobre eles e serão amados até o fim de seus dias.

Não coloque nenhuma confiança em seu coração no acúmulo de riquezas, pois tudo o que tem é um dom de Deus.

Incrível como preceitos levantados em 2.880 a. C. cabem em nossos dias. Não fariam feio, colocados entre provérbios salomônicos.

ºº ——– — ºº

Dedico esta crônica ao velho amigo Revdo. Matheus Benevenutto Júnior. É apenas 48 horas mais velho que eu. Porém muito mais sábio e importante. Nos fins de semana — ele seminarista, eu acadêmico de medicina — partilhávamos o mesmo quarto em Indaiatuba. Em Sorocaba, no exercício de seu pastorado, ajudou-me em momentos difíceis e comigo partilhou horas de júbilo. Zilah e Adélia eram amigas e colegas de trabalho.

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À frente a Igreja Presbiteriana de Sorocaba, Matheus militou no escotismo, na maçonaria, no movimento rotário, na ACM, no Conselho de Redação do Cruzeiro. Muito ajudou sua igreja a ser conhecida e respeitada fora do círculo evangélico.

Aprendi ouvindo seus sermões. Bem elaborados e plenos de conteúdo. Usava com maestria a mudança de entonação da voz para que palavras e frases mais importantes se destacassem. Pareciam grifadas. Verdadeiras esmeraldas.

Linguagem clara é coisa rara; é como esmeralda no meio de pedregulhos, diria Ptah Hotep.

(*) Will Durant História da Civilização Vol. I Nossa herança oriental. Edit. Record, 1963

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

 

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