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De inventores

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra.
De inventores
Crédito da foto: Divulgação

Edgard Steffen

Tem gente que vive inventando coisas, e quando faz algo importante ninguém
dá muito valor (João Gemignani Diário do Automóvel 10/10/1973, pág.2)

Da leitora Maria Aparecida Gemignani — orgulhosa filha do inventor, já falecido, cuja frase ilustra este artigo — recebo página do Jornal do Carro, suplemento do Diário de SP. Amarelada, quase se desfazendo pela ação do tempo, a folha traz ampla reportagem sobre seu pai. Cidadão de Capão Bonito adorava mecânica desde os 10 anos de idade. Na revolução de 1924 transportou tropas porque já era habilitado a dirigir caminhões e ônibus. Nas fotos, senhor magro, alto, 66 anos à época, aparece ao lado de bicicleta construída para o neto e de carro montado naquele ano. Mais parecido com um kart — nunca tive tempo para pensar numa carroceria, confessa — era o terceiro que havia concebido e construído juntando peças daqui ou dali. O primeiro carro de sua criação era movido a eletricidade (1940) e, conforme relatou ao jornal, pretendia construir um que não usasse gasolina.

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Deve existir por estes brasis afora outros geminhanis curiosos, dedicados e criativos construtores de suas próprias máquinas automotoras.

A colaboração da filha do mecânico inventor, levou-me a buscar algumas curiosidades na área do automobilismo. O primeiro automóvel foi inventado pelo francês Nicolás-Joseph Cugnot (1769). Era movido a vapor. Quem não deu muito valor à invenção foi o próprio Cugnot. Não apostou no sucesso de sua carruagem sem tração animal. Abriu caminho para outros. Em vários países foram concebidos motores e veículos automotivos. Rudolph Diesel (1893) inventou o motor que leva seu nome. Se você, preocupado com a ecologia, pensa que o biodiesel é coisa do mundo moderno, saiba que o combustível que movimentou o primeiro diesel era óleo de amendoim. Henry Ford não foi o 1º americano a fabricar automóveis, mas inventou a indústria automobilística, A montagem em série de seu Ford T barateou o custo dos carros, tornando-os acessíveis aos próprios operários. O primeiro automóvel a desembarcar no Brasil foi um Peugeot 1891, trazido por Alberto Santos Dumont. O primeiro emplacado pertencia ao Conde Francisco Matarazzo (1901).

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JK criou e Collor escancarou a porta de entrada para a indústria automobilística no Brasil. As montadoras proliferaram. Carrões e “pois és” entopem ruas e estradas*. Mas a fabricação do primeiro carro genuinamente brasileiro deve ser creditado ao engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926-2009). Formado pela Escola Politécnica (SP) propôs, como tese de mestrado, um projeto de automóvel — batizou-o “Tião” — mas foi desencorajado pelo orientador, com o mote “carro não se fabrica, se compra”. Formado, fabricou. Carrocerias em fibra de vidro e nomes indígenas (Ipanema, Itaipu, Xavante, Carajás). Durante 25 anos, a Gurgel produziu 40 mil carros. O engenheiro Gurgel não se interessou pelo álcool. Em sua opinião, terra devia produzir comida para gente não para automóveis. O Itaipu, homenagem à grande hidrelétrica, era movido a bateria. Estas pesavam mais que a carroceria e limitavam a autonomia. Tivesse sobrevivido à invasão das multinacionais, o carro brasileiro poderia hoje rodar com modernas baterias de lítio. Silencioso e livre da poluição pelos combustíveis fósseis.

Tanto o inventor, proibido pelo delegado de circular com seu protótipo na pequena Capão Bonito, quanto o visionário engenheiro, desestimulado a defender seu “Tião” na tese da Politécnica, fazem parte de uma elite que vive inventando coisas. Coisas que outros podem não dar grande valor. Mas não podem ser esquecidos. O valor maior é o sonho.

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(*) “Pois é” – apelido dado a carros velhos, a partir de comercial interpretado pelo humorista Ari Toledo para a Vimave (Vila Maria Veículos).

Fontes: Wikipedia
Revista do Carro – História do Automóvel no Brasil: Rica e apaixonante — outubro/2018
Panaro, R. – Gurgel: o sonho de um fabricante brasileiro de automóveis — Auto-Esporte — 06/09/2019

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra – E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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