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De canetas que mancham

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
De canetas que mancham
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Em visita a Ur o Papa Francisco faz a oração aos filhos de Abraão.
(06/03/2021 Dos jornais)

Não estranhem se lhes disser que minha geração foi a geração da caneta, do tinteiro e do mata-borrão. No primeiro ano do grupo escolar usávamos giz para fazer continhas numa pequena lousa retangular e lápis para desenhar o abc no caderno. O pequeno tinteiro, ao centro da carteira, permanecia vazio. Somente no 2º ano nos permitiam escrever com tinta. Acredito que o objetivo era profilático das manchas na roupa e borrões no papel. As famílias compravam uniforme para os filhos e não existiam tira-manchas eficazes como hoje.

Com alguma relutância (O que não consegue o confinamento!…) assisto a Gênesis, superprodução da TV Record. A fase atual narra a infância de Abrão na cidade-estado Ur da Suméria. Nos dias de Abraão (Ibraim, para os árabes) Ur, sessenta mil habitantes, era a maior cidade do mundo. A Suméria englobava seis urbes independentes, constituindo a mais antiga civilização da história. Usando estilete de osso ou madeira com ponta em forma de cunha, sacerdotes e escribas escreviam sobre a argila. Vem daí a denominação cuneiforme dada à escrita. Essas peças, levadas ao forno e cozidas, perpetuaram muito do que se sabe sobre os sumérios e caldeus. As cidades desapareceram, mas tijolos e peças com a escrita cuneiforme são achados relativamente comuns para arqueólogos.

Além de inventarem a escrita, os sumérios inauguraram a Idade do Bronze; foram os primeiros a fundir cobre com estanho para fabricar artefatos de bronze. Também codificaram a primeira legislação, organizaram exércitos, dividiram o tempo em horas, “inventaram” as escolas. Nelas, alunos escreviam e desenhavam na argila fresca aplicada sobre madeira de tamanho e formato equivalentes às pequenas lousas relatadas no parágrafo inicial desta.

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A segunda grande civilização foi o Egito. Além dos projetos arquitetônicos (grandes pirâmides, esfinge, templos e túmulos) também criaram escrita própria (hieróglifos) e inventaram o papiro. Sobre este, primitivas canetas desenhavam símbolos e cenas da época. Apesar da fragilidade, muitos rolos de papiro, guardados em boas condições, permitem ao homem moderno conhecer a história da antiguidade egípcia.

Hastes de junco (cálamos) e penas de aves, devidamente apontadas em forma de cunha, eram instrumentos de escrita. Por muitos séculos remígios de ganso, serviam aos escribas e copistas para rabiscar papiros, pergaminhos e, em séculos mais recentes, papéis. A pena metálica apareceria no final do século 18. No 20 ainda a usávamos.

A caneta-tinteiro surgiria no fim do século 19, patenteada por Lewis E. Waterman, em Nova York. Volta e meia vazava; nas viagens de avião, por exemplo. O jornalista húngaro Lazló Jozsef Biró, na Paris de 1937, teve a ideia de colocar uma esfera rolante na extremidade do artefato. À medida que rolava deitava tinta no papel. Além de não vazar não borrava. Foi assim criada a caneta esferográfica. Em 1944 Lazlo vendeu a patente para Marcel Bich; este melhorou o invento, barateou o custo de produção e perpetuou seu sobrenome criando a BIC (1949).

A necessidade em documentar acordos comerciais, dotar a comunidade de códigos de comportamento e convivência, materializar éditos do poder foram os principais estímulos para que as civilizações desenvolvessem suas respectivas escritas e instrumentos para registrá-las.

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No mundo dos bits e dos bytes, o registro eletrônico toma conta de tudo. Não há mais tintas ou canetas que mancham. Ad perpetuam rei memoriam, são necessárias assinaturas em documentos dos Três Poderes.

Nesta nossa pesteada Pindorama, acima de penas ou tintas, as manchas e borrões dependem dos que empunham as canetas. Condenam ou absolvem. Prendem ou soltam. A História os julgará. A avaliação pode ser futura, mas quem sofre somos nós que pagamos a fatura.

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: [email protected]

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