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Consciência de máquina e o papel da humanidade

Confira o artigo de Leonardo de Lellis Rossi e Lucas Paiva de Andrade

Leonardo de Lellis Rossi, com Lucas Paiva de Andrade

Isso é muito Black mirror. Esta frase passou a ser utilizada nas redes sociais referindo-se ao grande avanço da tecnologia e sua similaridade com a série antológica de ficção científica “Black mirror” (2011-2018), a qual explora um futuro onde a natureza humana e a tecnologia de ponta entram em conflito. Porém, nossa evolução vem sido atribuída à nossa capacidade de armazenar e passar conhecimento, desenvolvendo técnicas, produtos, ferramentas, métodos ou qualquer tecnologia que contribua para a melhoria do nosso dia a dia.

Em algumas destas melhorias, fomos capazes de ultrapassar limites impostos pela natureza. Como exemplo, temos a capacidade de voar. Apesar do Homo sapiens não possuir a estrutura corporal necessária, pudemos alçar voo com a invenção do brasileiro Santos Dumont (1873-1932). Além disso, ainda que o avião tenha sido criado a partir da observação dos pássaros, nossa máquina mecânica de voar mostra-se bem mais resistente e eficiente que os modelos naturais em que foi baseada.

Analogamente, poderíamos atribuir também a capacidade de pensar a uma máquina? E assim como o avião, esta máquina seria capaz de nos superar quanto a nossa capacidade? Isso nos beneficiaria?

Alan Turing (1912 – 1954), conhecido como o pai da computação, elaborou a hipótese que “pensar é computar através da manipulação de símbolos”. Nesse sentido, o pensamento não seria nada mais que um processo operacional de símbolos. Um sistema de pensamento não passaria de um trabalho de organização das configurações simbólicas, adquiridas pelos seres humanos.

Pesquisas recentes, como a proposta para consciência em máquinas do prof. dr. Alexandre da Silva Simões (Unesp/2015), defendem a tese de que o computador precisa copiar, não é o cérebro, mas as funções de um. Assim como um computador pode processar dados, ele também poderia processar um pensamento. A aplicação deste sistema possibilita uma nova visão sobre a inteligência artificial, não só de potencial financeiro, mas também evolucionista.

Entretanto, tentativas de replicar nossa consciência têm demonstrado o quanto temos de refletir sobre nossos valores antes de tentarmos replicá-los e evoluí-los. Em 2016, a empresa Microsoft criou um perfil virtual no Twitter que desenvolve seu repertório e inteligência a partir das interações com outros usuários em redes sociais. Assim, seu discurso é um reflexo do que é lhe passado. Foram necessárias 24 horas para a conta se desenvolver na internet, tempo suficiente para a máquina adquirir um perfil racista, homofóbico e extremamente violento.

Este caso evidencia a necessidade do ser humano em refletir a respeito de seus valores e da formação de nosso caráter como sociedade. Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) aponta para o fato de haver na natureza humana uma tendência a viver em sociedade, e que, ao realizar esta inclinação, o homem realiza o seu próprio bem. O homem tende à vida em sociedade porque nela, e somente nela, se torna plenamente humano.

O desenvolvimento nas áreas de tecnologia tem permitido o surgimento de máquinas cada vez mais inteligentes, que tomam decisões rapidamente e com precisão. Cabe ao ser humano, criador desta tecnologia, direcioná-la para nossa evolução como espécie. Repensando o modo em que vivemos em sociedade, temos o potencial para progredir ainda mais. Porém, enquanto nos agarrarmos a nossos conceitos egoístas e individualistas, não nos permitimos uma real sensação de ser humano.

Leonardo de Lellis Rossi é engenheiro de Controle e Automação e mestrando em Engenharia Elétrica pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Sorocaba (ICTS/Unesp). E-mail para contato: leonardo.lellis@unesp.br.

Lucas Paiva de Andrade é graduando em Engenharia de Controle e Automação pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Sorocaba (ICTS/Unesp) e atualmente trabalha com Segurança da Informação na empresa PagSeguro.

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