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Colagens na Primavera

Colagens na Primavera
Crédito da foto: Erick Pinheiro / Arquivo JCS (6/9/2018)

Edgard Steffen

Neste 2019, o mestre dos filmes de suspense — Sir Alfred Joseph Hitchcok — faria 120 anos.

Do grande cineasta inglês, boa definição da diferença entre filme de mistério e filme de suspense. Nos de mistério ninguém sabe o que está para acontecer. Nos de suspense os personagens desconhecem a trama, mas a plateia presente sabe o que está para acontecer.

Ao buscar meu carro estacionado numa baia do Hospital da Unimed, próximo a um ficus, sons agudos insistentes lembraram-me a marcação sonora da mais famosa cena de “Psicose”. Só para lembrar: sincopados e crescentes sons agudos davam ritmo à mão e à faca de cozinha que assassinaria Janet Leigh no chuveiro do Bates Motel. Como se fôssemos personagens hitchcoquianos, num átimo, esvoaçante pássaro veio em minha direção e bicou meu pescoço. Não vão pensar que tenho cara de Tippy Hedren, mas que bicou, bicou. Se eu fosse mais atento, teria previsto o ataque. O sabiá-poca (Mimus saturninus) faz jus ao nome que os índios lhe deram; embora seja ave de família canora (Turdidae) seu canto limita-se a um espoucar forte e agudo. Poc é barulho, estouro, em tupi-guarani. Antes de me atacar, o pássaro pulara agitadamente entre os galhos do arbusto e chilreara insistentemente anunciando que ali era seu território. No ficus estavam ninho e prole. Para defendê-la punha seus vinte e poucos centímetros contra os 182 do grandalhão que ousou passar por ali. Quem viu a cena deve ter se divertido com meu sustinho. Como tudo tem serventia, o episódio serviu para me lembrar que estávamos em plena primavera.

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Bem lá dentro da memória, vozeirão do Tim Maia anuncia que, por ser primavera “o céu está tão lindo” e tem à mão uma rosa para a amada. Como rosas simplesmente não falam, vamos garimpar o que outros poetas disseram sobre a estação das flores. Começo com Vinícius, em música de Carlos Lyra, pedindo a uma estrela “desce à terra /O amor existe / E a poesia só espera ver / nascer a Primavera para não morrer.” Fernando Pessoa, pelo heterônimo Alberto Caeiro, nega sua pessoal importância diante da beleza da estação “Quando vier a Primavera / Se eu já estiver morto / As flores florirão da mesma maneira.” Bonito, apesar da aliteração. O português Miguel Torga desafia “Abre-te Primavera! / Tenho um poema à espera de teu sorriso. / Um poema indeciso entre a coragem e a covardia.”

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Cecilia Meireles pede que “prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera”.

Para Gabriela Mistral “Doña Primavera / de aliento fecundo, se ríe de todas / las penas del mundo…” Carlos Drumond de Andrade finge ignorá-la “Chegou a Primavera? / Que me contas! / Não reparei. Pois afinal de contas / nenhuma flor a mais no meu jardim, / que aliás não existe, mas enfim / essa ideia de flor é tão teimosa, / que no asfalto costuma abrir a rosa…”

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Da portuguesa de nome esquisito e vida curta Florbela Espanca “Há uma Primavera em cada vida. / E preciso cantá-la assim florida, pois, / Se Deus nos deu voz, foi pra cantar!”

Como Manoel de Barros “fui aparelhado para gostar de passarinho / Tenho abundância de ser feliz por isso.” Podem me achar brega mas, para saudar a Primavera, deitado na preguiçosa rede dos quase 90 invernos, talvez eu, lembrando Roberta Miranda, prefira “uma rede preguiçosa pra deitar. / Em minha volta sinfonia de pardais / Cantando para a majestade, o Sabiá”.

De preferência da espécie “laranjeira”.

Sorocaba, Primavera de 2019

Edgard Steffen é médico pediatra e escritor. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

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