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Ciência e religião

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
Ciência e religião
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Leandro Karnal

“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.” A frase é bem construída. Coloca duas afirmações fortes unidas pela ausência (indicada pelo termo “sem”). Ela aponta o vazio irreparável da ideia científica e da religiosa na fala recíproca. O autor? O nome reforça ainda mais o peso da afirmação: Albert Einstein.

Grande parte da história do mundo poderia ser contada como a relação complexa entre ciência e religião. Muitas pessoas invocarão a imagem simbólica de Galileu Galilei (1564 – 1642) diante do Tribunal do Santo Ofício, obrigado a se retratar oficialmente para não ser queimado. O exemplo do suplício de Giordano Bruno (1548 – 1600), ocorrido quando o astrônomo de Pisa tinha acabado de completar 36 anos, certamente pairava na memória. Um filósofo, Giordano, queimado em praça pública, torturado, o fogo aceso com sua própria obra: eis uma imagem forte que seduz quando vemos sua estátua no Campo dei Fiori.

Giordano, o inflexível; Galileu, o negociador: ambos são exemplos sempre citados de uma oposição absoluta entre fazer ciência ou ter fé. O escritor Morris West (1916 – 1999) criou “O Herege”, reforçando o caráter heroico do dominicano supliciado em Roma. Li na juventude, emocionado, a frase de Giordano olhando para os juízes e dizendo que eles, acusadores, tinham mais medo dele, réu, do que ele temia a seus carrascos. Psicanaliso: West, escritor de best-sellers, tinha uma relação complexa com sua mãe australiana católica, algo que aparece em obras como “As Sandálias do Pescador” ou “O Advogado do Diabo”.

A inspiração também atingiu Bertolt Brecht (1898 – 1956), autor da “Vida de Galileu”. Anos depois, estudando mais, entendi que Brecht dialogava muito com o nazismo e sua repressão, pois a peça era de 1943 e o dramaturgo estava exilado na Dinamarca. Também no Brasil, Zé Celso, Cláudio Corrêa e Castro, Renato Borghi levaram adiante um Galileu que, com certeza, dialogava com o clima de enfrentamento com a ditadura por aqui.

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Críticas possuem história, origem e viés, sempre. Quase toda imagem que vemos de Galileu no Tribunal pertence ao século 19, momento em que o Liberalismo europeu via na Igreja (e no papado de Pio IX) um obstáculo. A Igreja Católica era considerada inimiga mortal da liberdade e da ciência. Sabemos, hoje, que tal proposta é um postulado que pertence mais às formulações de um grupo dos oitocentos do que ao Renascimento.

O quadro mais ilustrativo da cena da repressão ao saber livre é o de Cristiano Banti (1824 – 1904), que mostra Galileu à direita, em pé, segurando sua capa e, a sua frente, um temível dominicano apontando com dedo acusador o trecho de uma obra. A pintura fala pouco do processo do astrônomo e muito da oposição do papado à Unificação Italiana. O mesmo pode ser dito da maioria das gravuras ilustrativas sobre torturas da Inquisição: quase sempre são um documento do Liberalismo e da secularização do século 19.

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O caldo de crítica aos poderes (nazismo no caso de Brecht e ditadura militar no caso da encenação da Galileu aqui) mistura a ideia de uma ciência iluminada contra a religião.

Era uma dicotomia insuperável? Giordano Bruno era mais um hermético, ocultista e estudioso das artes da memória do que um cientista iluminado. Um dia, o filósofo de Nola se convertera ao Calvinismo, quando a nova religião parecia útil. Depois, renunciou à nova fé para, curiosamente, tornar-se o mártir da coerência diante do tribunal romano. Ao virar personagem, Giordano Bruno pode encarnar toda a luta contra a censura e o autoritarismo. Ali no local em que ele foi assassinado, todo dia 17 de fevereiro ocorrem discursos pela liberdade de pensamento. Em uma rara praça sem igrejas de Roma, todos olham para a estátua do frade com capuz e olhar triste (estátua, aliás, também feita no século 19 com coleta entre tantos inimigos do papado). Na mesma praça tinha sido erguida uma outra obra durante as agitações da “primavera dos povos” (1848/1849) e, depois, destruída pelo bispo de Roma. Reerguê-la era um sinal contra a memória de Pio IX e contra o papa reinante de 1889: Leão XIII. Durante a ditadura totalitária italiana, para agradar aos cardeais, Mussolini planejou remover a estátua. Ocorreu o inesperado. O filósofo fascista Giovanni Gentile era admirador de Giordano Bruno e pressionou para que Mussolini mantivesse o monumento. Construída duas vezes contra papas e mantida por um fascista, a obra continua lá mostrando que os signos são históricos, sempre, e mutáveis por natureza.

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Para que não fiquemos repetindo slogans e ideias românticas, sempre é bom ler muito. A Editora Ideias & Letras traduziu o “Cambridge Companion” sobre Ciência e Religião. O organizador é Peter Harrison (autor do excepcional “The Fall of Man and the Foundations of Science”, Cambridge University Press). A obra original é de 2010 e a tradução brasileira é de 2018 (feita por Eduardo Rodrigues da Cruz). Nela, diversos autores analisam o binômio ciência e religião. Big Bang, criacionismo, design inteligente, ateísmo, darwinismo, universidades medievais, filosofia patrística e escolástica, secularização: todos os conceitos tratados por grandes especialistas em um texto claro e muito bom. Recomendo a leitura vivamente. Boa semana para todos.

Leandro Karnal é historiador e escritor.

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