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Campineiro e sorocabano

Artigo escrito por Vandelei Testa, jornalista e publicitário
Gualberto Moreira e padre Pieroni/ Instituto Histórico Sorocabano. Crédito da foto: Divulgação

Vanderlei Testa

Newton Corrêa da Costa Júnior, o idealizador, em 1960, do Torneio Aberto de Futebol de Salão Cruzeiro do Sul – “Cruzeirão” teve uma fascinante vida esportiva em Sorocaba. A história do cestobol e, posteriormente chamado de basquetebol fincou raízes em gerações que amavam essa modalidade, como o sorocabano Hélio Augusto Loureiro Paschoalick. Em livro publicado no ano de 2007, o saudoso técnico da Seleção Sorocabana de Basquetebol “Campineiro”, destacou Votorantim e Sorocaba como capitais do basquete feminino do Brasil. Ganhei um exemplar histórico autografado das mãos do Campineiro. No livro, o próprio Paschoalick explica que o apelido “Campineiro” é mero acidente. Isso porque o coração desse atleta pulsava como um sorocabano nato.

Em Sorocaba existiram dois tempos do basquetebol. Um antes e outro depois do Campineiro. O pai foi a sua inspiração para ser um técnico batalhador e professor do basquetebol que jamais será esquecido em Sorocaba e no Brasil. Em 1961 conquistou um grande feito perante um público de 20 mil pessoas com as atletas Cássia, Norminha, Amelinha, Malu, Neuzinha, Sônia, Sheila e Edi. Elas foram campeãs dos Jogos Abertos do Interior na cidade de Piracicaba, com a conquista das Medalhas de Ouro.

A vida de Campineiro expressou um incrível ser humano interessado em ajudar crianças e adolescentes no esporte. Ele comentava que mesmo após ser aposentado, depois de mais de 30 anos viajando por cidades em estradas ruins e condições de riscos de vida, nunca desanimou. Era como se dizia na época, um “Caxias” em suas atividades profissionais, indo atrás da perfeição máxima de seus colaboradores e atletas. E reconhecia sua eterna gratidão à esposa, Aparecida, e à filha, Regina Maria, sorocabanas, pela sua ausência em centenas de jogos por esse Brasil afora. Era técnico de equipes mirins, infantis, juvenis e adultos. Sua casa era o Ginásio Municipal de Esportes “Gualberto Moreira”.

Na minha juventude eu morava ao lado do ginásio e pude acompanhar e testemunhar durante anos como o Campineiro era dedicado ao basquetebol.

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Questionado pela imprensa e amigos sobre o porquê decidiu escrever o livro, Campineiro contou que quando era diretor do Serviço Municipal de Esportes, de 1950 a 1968, tinha mais de 100 álbuns de fotos e recortes do chamado “cestobol” feminino e masculino.

Entre as curiosidades da trajetória de Campineiro, destaco uma ocorrida em 1966. Ele foi convocado para ser o técnico da Seleção Paulista Feminina de Cestobol. Além dessa importante missão tinha que exercer sem nenhuma remuneração as atividades de preparador físico e auxiliar de massagista.

Uma das características do Campineiro era a gratidão às pessoas. Sua generosidade não tinha limites. O saudoso padre André Pieroni faz parte das suas dedicatórias de vida. Contava Campineiro, que esse sacerdote se envolveu com a educação de Sorocaba. Foi um ícone na construção do Ginásio “Dr. Gualberto Moreira” e na realização, em 1950, dos Jogos Abertos do Interior pela primeira vez em Sorocaba. Parece simples, mas naquele ano de 1949 a cidade não tinha um ginásio para sediar os jogos. Em um ano teria que ser construído e com capacidade para receber 2.500 pessoas. Campineiro contava que o padre Pieroni foi presente até na mão de obra da construção. De batina colocava literalmente a mão na massa. E tem mais, contava Campineiro, foi graças ao empenho do padre Pieroni e de outros abnegados homens e mulheres que Sorocaba ganhou sua Faculdade de Medicina, Faculdade de Direito e a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras.

Recordo-me da minha juventude, do consultório do Dr. Gualberto Moreira vizinho da minha casa, na rua Santa Maria. Era um humanista nato. O povo enfermo recorria aos seus cuidados profissionais e nunca deixou de atender ninguém. Chegou a prefeito de Sorocaba por seus méritos e sabedoria. Era um dos maiores incentivadores do esporte das cestas. Em 1957 trouxe a Sorocaba o Campeonato Brasileiro Feminino de Basquetebol. Gualberto Moreira fazia questão de acompanhar a equipe Sorocabana em decisões, como foi em Curitiba, em 1958. E mais uma vez campeã, a equipe retornava à cidade com manifestações públicas da torcida em carreata pela cidade.

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Nas reminiscências do passado o técnico Campineiro teve em suas memórias a gratidão nas lembranças dos atletas masculinos do basquetebol. Entre eles, os que atuavam em 1937: Quinzinho, Edésio, Taborda. Maço, Pacheco, Thirso, Gildo, Gelato, Lourival, Ruy e Fru-Fru. Dez anos depois, em 1947, os atletas campeões eram: Reynaldo, Didi, Salvador, Hélio Del Cistia, Fru-Fru, Paulinho, Paulo Marciano, Sete Belo, Diler, Vicente e Neto.

A carta que recebi do Campineiro, em 11 de novembro de 2011, é uma relíquia das minhas lembranças de vida jornalística. Vou citar alguns trechos: “Após o falecimento da minha esposa e filha e neto, que moram em São Paulo, vivo só, com Deus, em Sorocaba. Estou chegando aos 87 anos de idade. Usei cadeira de rodas, andador, depois de algumas quedas. O que mais me prejudica são os degraus, por isso não tenho ido assistir jogos no Ginásio de Esportes. Vim morar em Sorocaba por indicação do atleta e diretor escolar Edésio Del Santoro. Na época eu jogava e trabalhava no Corinthians, em São Paulo. Sorocaba tinha 100 mil habitantes”.

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O livro, a carta de três páginas e, a dedicatória, inspirou este terceiro artigo de 2021, que escrevi acreditando que Sorocaba é terra de bandeirantes, de campeões de futebol e de futsal, de basquete, de muitas modalidades esportivas, culturais, na área da educação e saúde. Sorocaba é terra de gente vencedora e nenhuma pandemia vai desanimar o desenvolvimento da cidade.

No dia 12 de janeiro, dedicado a São Bento Biscop, o santo foi homenageado como um homem que viajava muito. Esse fato nos lembrou do time do São Bento e da última viagem do Campineiro, no dia 11 de agosto de 2014, com destino ao paraíso. Lá, com São Bento, Campineiro descansa em paz e continua sua missão junto a Deus, a quem orava diariamente agradecendo o dom da vida dedicado ao esporte.

Vanderlei Testa é jornalista e publicitário. Escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.blogvanderleitesta.com e www.facebook.com/artigosdovanderleitesta.

 

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