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As mil e uma utilidades do botox

Mário Cândido de Oliveira Gomes

O botox está na ordem do dia. Fala-se muito dos efeitos estéticos da toxina botulínica, principalmente do esmaecimento das rugas em torno dos olhos (pés de galinha) até o uso espetacular no estrabismo, nas distonias, disfonias, tremores, sequelas de derrames ou paralisias cerebrais, etc. Vejam só o paradoxo. Uma toxina que pode causar a morte através da intoxicação alimentar pelo Clostridium botulinum também é empregada para corrigir e tratar problemas médicos.

Com efeito, o botulismo é causado por sete tipos diferentes de toxinas (A até G), fabricadas por uma bactéria que existe no solo, sendo ingerida através do palmito, salsicha, etc, em forma de enlatados. Trata-se de uma enfermidade extremamente grave, que mata através da paralisia da musculatura, inclusive respiratória.

O uso da toxina botulínica A teve início na década de 80, para o tratamento do estrabismo. Existem dois tipos no mercado: o Botox, cujo frasco contém 100 UI de pó liofilizado e, mais recentemente, o Dysport, com 500 UI. Uma unidade de Botox corresponde a três de Dysport. A toxina inibe um transmissor da fibra nervosa (acetilcolina), responsável pela contração muscular, provocando o relaxamento. Assim, todas as enfermidades ou situações que apresentam contração muscular podem ser relaxadas com Botox.

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Após os resultados obtidos no estrabismo, pela injeção de minúsculas doses de toxina botulínica A nos pequenos músculos oculomotores, os neurologistas começaram a utilizar o produto para a descontração muscular. As primeiras enfermidades testadas foram as distonias, que são caracterizadas por movimentos involuntários provocados por contração muscular sustentada, levando atorções, movimentos repetitivos ou posturas anormais.

A forma mais encontrada é a cervical, pela contratura dos músculos do pescoço (torcicolo espasmódico), sendo a causa geralmente desconhecida. Por isso o diagnóstico é eminentemente clínico. O Botox é aplicado nos músculos envolvidos para reduzir a contração, mas sem afetar sua função ou provocar paralisia. Também é utilizado nos espasmos da face e no blefaroespasmo (músculos orbiculares dos olhos).

O efeito da toxina injetada aparece 2 a 3 dias após, com diminuição progressiva da contração exagerada do músculo, e ápice no final de duas semanas. Sua ação permanece entre 2 a 6 meses, sendo necessárias novas injeções. As aplicações podem provocar pequenos hematomas ou discreta dor local. Na distonia cervical, que exige doses maiores, pode ocorrer reação sistêmica parecida com gripe (flu-like reaction), que dura um ou dois dias. Em alguns casos de blefaroespasmo ocorre fraqueza ou queda da pálpebra (ptose), assim como no espasmo hemifacial (fraqueza dos lábios e do mento).

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A eletromiografia é útil para identificar os músculos comprometidos no movimento. Quando a contração não responde com toxina A, deve-se utilizar a B ou F, que têm eficácia semelhante. A melhora nesses casos pode chegar a 95%, enquanto na distonia cervical varia de 70% a 90%. Outras formas de distonias também são tratadas com toxina botulínica, como a caimbra do escrivão, ou na disfonia espástica, espasticidade dos músculos adutores das coxas e nos extensores plantares dos pés (derrames e paralisia cerebral), tremores amplos, tiques, gagueira, trismo no tétano, etc. Todavia, o Botox só atingiu notoriedade quando foi utilizado pelos esteticistas para o embelezamento e no combate ao envelhecimento precoce da pele, substituindo em certos casos a cirurgia plástica, como na retirada de estrias, sulcos, cicatrizes ou no esmaecimento de rugas, etc. Realmente, foi uma verdadeira revolução no consultório dos especialistas.

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Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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