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As folias de Momo

Mário Cândido de Oliveira Gomes

Quase tudo é permitido durante o Carnaval. Por isso vem os excessos, principalmente em relação às bebidas, comidas, sexo, drogas, gelados e os famosos bailes. Como ninguém é de ferro, o organismo estrila através de numerosas doenças, como o alcoolismo agudo, as intoxicações alimentares, doenças sexualmente transmissíveis, infecções respiratórias e a desidratação pelo suor excessivo. A embriaguez decorre da ingestão exagerada e rápida de álcool etílico ou etanol, que é um ingrediente ativo da cerveja, uísque, vinho, etc, além dos éteres enânticos que dão o aroma e pequenas quantidades de impurezas, como o álcool amílico e o aceitaldeído, que são mais tóxicos que o etanol nas bebidas.

Por meio da corrente sanguínea o álcool atinge todos os órgãos, mantendo uma relação constante com o sangue. Finalmente, o álcool é transformado no fígado e eliminado através dos rins, suor e respiração. A ingestão de alimentos (proteína, açúcar, gordura, etc.) intensifica a retirada de álcool do sangue, revertendo a intoxicação. Por sua vez, o etanol provoca intensa diurese, causando desidratação. Daí a necessidade da ingestão de grandes volumes de líquido. Ainda, acima de 10% a 15% o álcool irrita a mucosa do estômago (gastrite) e determina alteração do comportamento, numa gama que vai da euforia até a sonolência e coma.

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Os sinais de intoxicação alcoólica são característicos e a maioria das formas não apresenta problemas de diagnóstico e tratamento. Assim, graus leve e moderado não precisam de tratamento especial. São úteis alguns cuidados tradicionais e consagrados pelo tempo, mas que não interferem na eliminação da droga, como banho frio, café forte, atividade forçada ou vômitos. Todavia, perda de consciência (coma) requer cuidados hospitalares para combater a depressão respiratória e suas numerosas complicações.

A injeção de glicose com insulina na veia pode ajudar ou apressar a saída da sonolência, sendo útil nas enfermarias os clubes sociais. Os vômitos são combatidos com medicação sintomática e a desidratação com soros específicos, assim como a queda de temperatura. Infelizmente, a ressaca do dia seguinte é inexorável, surgindo fortes dores de cabeça, tontura, fraqueza e gosto amargo na boca.

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Uma regra básica no Carnaval é evitar a ingestão de bebidas fortes com o estômago vazio. Como já foi mencionado, o leite e as comidas gordurosas dificultam a absorção do álcool. Também não esquecer a agressividade das drogas, além da “epidemia maldita” – a Aids e demais doenças sexualmente transmissívei. Aliás, o indivíduo drogado ou alcoolizado tudo permite, inclusive a injeção contaminada na veia e relação sexual com pessoas desconhecidas. Sem falar no esquecimento do uso de preservativo. Um cuidado especial do folião deve ser com os lanches e as refeições fornecidas nos clubes, onde a higiene é duvidosa e os alimentos mal conservados. O resultado final é a famosa “intoxicação alimentar” por salmonela ou estafilococo, que deixa o folião na cama por três a sete dias.

Também devem ficar espertos em relação aos gelados e ar condicionado, pois as infecções pulmonares são relativamente frequentes.

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O clima de euforia natural ou artificial criado pela mídia em torno da farra de Momo torna quase normal a permissividade que leva à falta de autocrítica, ausência total de respeito e excesso de liberdade. Para aquele que gostam do Carnaval sadio e respeitoso, bom divertimento, mas sempre com critério e bom senso, pois como dizia minha querida avó: “Caldo de galinha e juízo não fazem mal a ninguém”.

Artigo extraído do livro Doenças – Conhecer para prevenir (Ottoni Editora), de autoria do médico Mário Cândido de Oliveira Gomes, falecido aos 77 anos, no dia 6 de junho de 2013.

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