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Artimanha das imagens no livro didático

Artigo escrito pelas professoras Luciana Coutinho Pagliarini de Souza e Maria Ogécia Drigo

Luciana Coutinho Pagliarini de Souza e Maria Ogécia Drigo

“Uma imagem vale mais que mil palavras”. Esta máxima atribuída a Confúcio, recorrente em nosso cotidiano marcado pela profusão de imagens, está deslocada de seu contexto de origem. O fato de ser sido proferida por um sábio chinês leva-nos a conjeturar que, provavelmente, esteja calcada no potencial de significados engendrado pelo ideograma, um modo de representar a partir de “imagens” bastante distinto da língua ocidental, que se notabiliza pelo código escrito arbitrário e linear. Pois bem, usamos essa expressão como um sinal de que as representações visuais (desenhos, pinturas, fotografias, imagens da TV, do cinema e reproduções dessas mesmas imagens) que circulam e se disseminam nas mídias sociais precisam de maior atenção.

De fato, o mundo audiovisual desafia a escola, que se esgueira de demandas vindas com a revolução tecnológica, constituídas não apenas de novas máquinas ou meios, mas de novas linguagens, escritas e saberes, conformados pelo acoplamento da imagem na produção de conhecimentos. Como pesquisadoras de temas na interface Comunicação/Educação, a imagem como representação visual tem nutrido, há muito, nossos estudos, sobretudo no que diz respeito ao modo como ela age no pensamento ou atua no processo cognitivo.

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O livro didático tornou-se material promissor para nossa pesquisa, primeiro por estar entre os meios responsáveis por abrigar mensagens híbridas — palavras e imagens; segundo, pelo compromisso de desnaturalizar as desigualdades e promover o respeito às diferenças, como consta nos documentos disponibilizados pelo Ministério da Educação e da Cultura (MEC). Em geral, é preconizada a necessidade de contribuir para a formação de cidadãos críticos e reflexivos, desprovidos de preconceitos, capazes de respeitar a si mesmos e a outros, a sua própria cultura e as dos outros, partindo de experiências críticas e reflexivas.

Diante disso, compreender como a alteridade era representada pelas imagens passou a ser nosso propósito e, para tanto, investigamos cerca de 30% do total de 66 coleções indicadas no Guia de Livros Didáticos — PNDL 2012 — para o Ensino Fundamental das disciplinas escolares: Língua Portuguesa, Ciências, Matemática, História, Geografia e Língua Estrangeira.

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Os resultados da pesquisa indicam que os livros didáticos possuem excesso de representações visuais, com mais de uma por página. Em geral, são imagens redundantes, isto é, não agregam nada além do que está no texto verbal, bem como teimam em exibir estereótipos. Em relação ao gênero, há preponderância do masculino; na questão da raça, o exotismo ainda prevalece, notadamente em relação aos cabelos de afrodescendentes; quanto à complexidade cultural e étnica dos povos originários, as representações visuais não contribuem para a construção de uma visão mais crítica sobre os povos originários, sobretudo se levarmos em conta a sua inserção no cenário atual; por fim, no que refere-se à identidade, as diferenças são pouco acentuadas.

Faz-se necessária uma “educação do olhar” para as representações visuais. Elas geram significados, não só pelos simbolismos que carregam, como pelo seu poder de referência às coisas do mundo e pelos aspectos qualitativos da sua composição, tais como cor, forma, textura e movimento, entre outros aspectos das linguagens visuais. É importante avaliar como tais significados estão impregnados na materialidade das representações visuais. Com isso, não estaremos dirimindo a importância da palavra, mas mostrando a importância dessas imagens na constituição do pensamento.

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As professoras Luciana Coutinho Pagliarini de Souza e Maria Ogécia Drigo, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso, são autoras do livro “Diversidade e livros didáticos: artimanhas das imagens”, que será lançado no dia 6 de novembro, às 19h, em um evento online. Informações: uniso.br/evento/artimanhasdasimagens

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