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A borboleta e a crisálida

Confira o artigo de Leandro Karnal, articulista da Agência Estado
A borboleta e a crisálida
Crédito da foto: Pedro Negrão / Arquivo JCS (2/1/2013)

Leandro Karnal

A bela caixa da Tag trouxe-me três obras extraordinárias: “Sonho de uma noite de verão” (William Shakespeare), “Amor e amizade” (Jane Austen) e, por fim, “A mão e a luva” (Machado de Assis). Todos os textos eram meus conhecidos e aceitei o desafio de voltar a eles depois de tantos anos. São livros em formato pequeno, ideais para minhas horas de avião. Ida e volta de Natal (RN), ida e volta de São José do Rio Preto (SP) e a caixa estava lida e assimilada.

A obra com maior hiato entre a primeira vez e agora foi a de Machado. Li “A mão e a luva” no ensino fundamental, em 1975. Eis-me reencontrando Guiomar 44 anos depois. Percebi que algumas histórias curtas estavam misturadas na memória entre Alencar e Machado: “A pata da Gazela”, “Cinco minutos”, “A viuvinha”… Tirando “Senhora” (a reviravolta de Aurélia me surpreendeu muito), todas me pareciam um pouco semelhantes. Mocinha e mocinho sofrem e, no final, o amor vence. Claro, muito mais maduro, estou mais apto a compreender sutilezas que eu não percebia antes.

A obra de um grande autor é sempre um signo aberto que permite releituras. Senti isso também com o “Sonho de uma noite de verão”, mas fazia apenas quatro anos da última leitura e eu tive acesso a duas encenações e a um filme sobre a história. Shakespeare é o oceano no qual vivo imerso e Machado foi o continente que me convidou a uma nova visita após décadas. Aceitei com prazer.

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Nas brumas da lembrança de um adolescente, Guiomar tinha dito sim ao parente da Baronesa para agradar à madrinha. Porém, de boa índole, a velha senhora entendeu que o coração da moça estava cativo de outro. Eu vi Guiomar dividida entre a gratidão à dama que a resgatara da pobreza e o amor que sentia… Em 1975, eu tinha 12 anos e Guiomar me encantou com sua divisão nascida de boa índole.

A água passa sob as pontes, acumulamos glórias e derrotas e, finalmente, algumas ingenuidades vão embora com o colágeno. Sim, Guiomar era fiel à boa madrinha. A aposta que a jovem e bela resgatada fizera era como a mão que procurou luva adequada e o encaixe foi determinado pela ambição da moça, não apenas pelas canduras afetivas. O final da obra mostra que havia ressentimento com a pobreza original de Guiomar e as mulheres com sedas e joias que entravam na chácara da benfeitora. Guiomar não era uma arrivista e jamais teria a objetividade fria de uma ambiciosa.

Bonita acima da média, elegante, leitora de romances em francês, Guiomar procurava um homem adequado ao salto econômico que a vida proporcionara. Seu esforço apagara a simplicidade de origem e agora, com botões de safira e fala esmerada, faltava-lhe um cúmplice para sua ambição. A transformação de Guiomar é anunciada no final do capítulo cinco. Em uma digressão sobre a infância de penúria com sua mãe viúva, comparando-a com a educada e desenvolta dama adulta, Machado afirma que “a borboleta fazia esquecer a crisálida”. A personagem central lutara muito para chegar à metamorfose que a fizera desenvolver lindas asas. Sabia por intuição mais do que experiência (como Machado anuncia ao compará-la a uma preceptora inglesa da casa da madrinha) que precisava de um companheiro igualmente ambicioso. O final da obra (perdoem-me, não posso ser acusado de promover spoiler de algo publicado em…1874) mostra o casal enlevado, apaixonado, especialmente porque o novo marido aspira à Câmara dos Deputados ou a um posto de ministro. A luva e a mão em perfeito encaixe!

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A borboleta não era, entendi só agora, um ser natural em que a loteria genética e a bondade de caráter tinham se encontrado como dois afluentes cristalinos de um rio maior. Ser crisálida incomodava Guiomar. O tema é pouco desenvolvido, porém a dor impulsionou a moça a criar a cenografia ideal para continuar na jornada de ascensão? A borboleta era a máscara de um carnaval veneziano, cobertura urdida no pântano do ressentimento, um dos mais fortes traços humanos. A doce e branca figura da “heroína” faria de tudo para não voltar ao incômodo dos anos de pobreza. Guiomar respeitava a vontade da madrinha-baronesa, era ainda uma personagem romântica, mas o romantismo de Machado não se confunde com o sentido que o termo adquiriu em senso comum atual

O romance não enfatiza a venalidade de Guiomar (haverá ainda uma menina que receba este nome no século 21?). Ela parecia honesta e sincera e integralmente devotada à benfeitora. Mas o que eu não vi naquela ocasião me saltou aos olhos agora. Guiomar pertence à categoria de personagens incapazes de cometer o erro de um crime ou um ato de renúncia absoluta. Ela não é malévola e, certamente, nunca seria uma romântica de devaneios vazios. Guiomar é uma honesta ambiciosa, uma romântica-realista que tem a ventura de colocar seu coração próximo à bolsa. O tempo correu tanto que essa combinação, hoje, já é própria de um espírito superior. É preciso ter esperança e, como Guiomar, um pouco de prudência para aguardar a luva adequada.

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Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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