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Ano bom, ano ruim

Artigo escrito por Edgard Steffen, escritor e médico pediatra
Crédito da foto: Reprodução / Internet

Edgard Steffen

Esperei pacientemente pelo Senhor; Ele se
inclinou para mim e ouviu meu choro (Salmo 40: 1)

FHC apelidou 2020 Annus horribilis. O texto é bom¹. Vale a leitura. O título, horrível. Mesmo para versados em latim, “annus” trazido para o vernáculo vai sempre lembrar o orifício extremo do aparelho digestório.

Se você, meu caro leitor, concorda que 2020 foi horrendo, aprenda com o ruim e procure a parte boa que nele existiu. E agradeça. Por exemplo, você sobreviveu à pandemia e, se continuar com sorte, alcançará a vacina que, venha de onde vier, lhe devolverá os abraços perdidos. Se você é cristão, entenda “sorte” como vontade d’Aquele que tem o domínio de tudo. Sua lei é perfeita, conforme reza o Salmo 18.

Pequeno empresário — cidadão correto, honesto, cristão — viveu dias difíceis nos primórdios do ano passado. A recessão econômica reduziu sua microempresa a uma espécie de bloco do “eu-sozinho”. Para manter o equilíbrio, pagar o plano de saúde e o tratamento da esposa (de quem estava separado, mas ainda sustentava) obrigou-o a dispensar funcionários e a dobrar os serviços que prestava aos eventos locais. Falecida a ex-companheira, entre as medidas de contensão de despesas, deixou de pagar o plano de saúde.

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Para complicar, dores causadas por hérnia inguinal limitavam sua capacidade laboral. Médico amigo sugeriu fosse operado, antes que encarceramento o colocasse em risco de vida. Parêntesis: a expressão parece controversa, mas não é. Foi usada muito tempo no jargão médico e pressupõe verbetes ocultos. “Risco (de perder a) vida”.

Cirurgião consultado orçou, entre despesas hospitalares e honorários, gasto entre R$ 8.000,00 e R$ 10.000,00. Por mais que economizasse, levaria anos para juntar a quantia. Assim como poderia levar anos até conseguir, no SUS, vaga para cirurgia eletiva. Orou. Entregou às Mãos Divinas.

Algum tempo depois houve grande festa na cidade. A prudência requeria ficasse em casa, em repouso, mas a necessidade o levou ao grande salão. Exerceu suas funções o quanto pode. Pálido, suor frio escorrendo pela face levou-o a um canto perto da entrada lateral do Salão de Festas. Grande empresário, visando não chamar atenção pelo atraso, entrou pela porta lateral. Não era seu amigo; conhecia-o de outros eventos. — Por que não opera? — Agora não dá. — Vá para casa descansar. Amanhã, venha à minha empresa. Deixarei instruções com minha secretária. E sumiu entre os convidados.

Resumo: um cheque o esperava. Exatos nove mil reais. Em momento algum o rápido diálogo envolvera pedido ou cifras. Os personagens não eram ligados por laços de amizade, parentesco, sociedade ou confraria. Não era empréstimo nem acordo comercial. Era a Providência Divina agindo. Soube do episódio quando questionei o pequeno empresário, meu amigo, não haver atendido meu convite para outro evento. Estava no pós-operatório de herniorrafia.

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No poema sueco Tack o Gud (Graças a Deus), escrito por August Ludwig Storn (1891), todos os 32 versos começam pela palavra tack (obrigado, graças). Musicado por Johannes Alfred Hultman, tornou-se uma das joias do cancioneiro evangélico. O poema fala em dar graças pela vida, pelo futuro e pelo passado, pelas rosas do caminho e seus espinhos, pela escuridão da noite e pelo brilho das estrelas, pela prece respondida e pela que falhou, pelo sofrimento do Cristo na cruz e pela Ressurreição.

Se você, meu caro leitor, anda desanimado com o ano que passou, agradeça as dificuldades e encontrará graças que lhe passaram desapercebidas. Em tudo — isto é, em todas as circunstâncias — dai graças porque esta é a vontade de Deusà³ .

Talvez, inspirado, você possa ajudar substancialmente alguém em reais carências.

1 Estadão 03-01/2021 pag. A2)
2 Alice Ostergren Denyszczuk traduziu para o português
3 1 Tessalonicenses 5:8

Edgard Steffen é escritor e médico pediatra. E-mail: edgard.steffen@gmail.com

 

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