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Agenda de inverno

Leandro Karnal apresenta indicações de leituras para os dias frios
Agenda de inverno
Crédito da foto: Pixabay

Leandro Karnal

O inverno, estação de frio em uma parte do País e com menos chuva em outras paragens, chegou. Não há como esquecermos da canção de Djavan que diz: “Um dia frio, um bom lugar para ler um livro”. Entrando no clima, quero aproveitar para indicar leituras possíveis. Cada um aproveite ou rejeite de acordo com suas afinidades eletivas.

Gosta de biografias? Sue Prideaux fez um estudo de vida e de ideias sobre um filósofo do século 19: Eu Sou Dinamite – A Vida de Friedrich Nietzsche (Planeta/Crítica, 2019). A inglesa escreveu um roteiro excelente para entender o mundo de um pensador que transformou a maneira de refletir do homem contemporâneo. Não deseja conhecer um filósofo? Seu livro é Minha História, a trajetória de Michelle Obama e o mundo em que ela viveu (Objetiva, 2018). O tom pessoal e sincero da obra é muito cativante. Para jovens, um bom livro que continua entre os mais vendidos há muito tempo é o famoso Diário de Anne Frank, com várias edições em português (Record, por exemplo). Se a barbárie nazista não tivesse ocorrido, no mês de junho Anne teria completado 90 anos. Existe até versão em quadrinhos para seduzir mais leitores. Ainda com descrições biográficas, foi um grande prazer ler o texto de Winston Churchill: Grandes Homens do Meu Tempo (Nova Fronteira, 2019). O ministro inglês é um conservador de pena lúcida e texto brilhante. Você pode concordar ou discordar, todavia com gente inteligente sempre aprendemos algo. Com Churchill, ganhamos muito.

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Ama poesia? Almiro Pisetta lançou instigante tradução dos sonetos do bardo: The Sonnets of William Shakespeare & Os Sonetos de Almiro W. S. Pisetta (editora Martin Claret, 2018). É uma experiência inovadora de criatividade para pensar os versos do autor que definiu a língua inglesa e o indivíduo moderno. Prefere uma musa nacional consagrada e intensa no seu despojamento? Não perca Adélia Prado: Poesia Reunida (Record, 2017). No campo dos jovens poetas nacionais, você pode explorar duas sensibilidades distintas e igualmente interessantes: Enzo Fuji que lançou Depois Que Seja Tarde e Antes Que Seja Nunca (editora Patuá, 2018) e Bráulio Bessa na sua tradição cordelística: Poesia Que Transforma (Sextante, 2018). Ler poesia é remédio fundamental para existir no mundo cru.

Prefere livros amplos de história? Sua opção para os meses seguintes está no texto de Jane Burbank e Frederick Cooper: Impérios – Uma Nova Visão da História Universal (Crítica/Planeta, 2019). Os autores selecionam 13 impérios e tentam encontrar uma lógica administrativa e de declínio em cada modelo.

Sua “pegada” é mais prática e voltada a questões pessoais? Pedro Salomão faz um livro dinâmico e de muito proveito: LYdereZ – O Exercício da Liderança para Conectar Gerações (Best Business, 2018). Na mesma “vibe” eu recomendaria o sucesso lançado há alguns anos e sempre entre os mais vendidos: O Poder do Hábito, de Charles Duhigg (Ed. Objetiva, 2012).

Quer refletir sobre o momento em que vivemos? O livro de Lilia Moritz Schwarcz é indispensável: Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Cia das Letras, 2019). É um retrato sistemático dos males do Brasil com a seriedade de sempre da consagrada pesquisadora.

Sua alma se inclina à arte? Não perca Nada se Vê – Seis Ensaios Sobre Pintura, de Daniel Arasse (Ed. 34, 2019). Seu olhar sobre As Meninas, de Velázquez, por exemplo, nunca mais será o mesmo.
O filósofo Renato Lessa escreveu O Cético e o Rabino – Breve Filosofia Sobre a Preguiça, a Crença e o Tempo (Ed. Leya, 2019). O texto é denso e faz pensar muito a cada capítulo. Clóvis de Barros Filho e Luiz Felipe Pondé produziram, pela Papirus, O Que Move as Paixões (2017). O livro dos dois conhecidos filósofos é um guia para estes tempos de debates apaixonados. Na mesma senda: Nem Anjos Nem Demônios, da Monja Coen e de Mario Sergio Cortella (Papirus, 2019). A budista e o pensador discutem a natureza moral e ética das ações humanas e os limites da liberdade de cada escolha nossa.

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Tem fôlego para um clássico que inaugurou uma tradição literária fundamental? Ateliê Editoral/Editora Unicamp (2018) fizeram primorosa edição da Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe. Não é obra para ler em poucos minutos, porém o prazer é para a vida toda.

Você é filho de imigrantes? Tem interesse no conhecimento de outros povos? A série da editora Contexto é um tesouro enorme: Povos e Civilizações. Lá seu olhar pode se debruçar sobre argentinos, alemães, americanos, chineses, espanhóis, italianos, japoneses, libaneses, russos, portugueses e outros. É uma aventura sobre história, estereótipos e cultura de cada nação que formou o Brasil. Da mesma editora, é muito interessante pensar em temas pungentes do nosso mundo, especialmente racismo. Assim, seu mundo de ideias será reorientado com a leitura de A Invenção das Raças (Guido Barbujani, 2007).

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No campo da boa ficção você nunca será inteiramente feliz sem ter lido o conto O Capote, de Nikolai Gógol (Ed. 34, 2010). Tenho amigos que escrevem bem; outros de forma excepcional, e um que cria fora da escala dos mortais: Valter Hugo Mãe. O livro Contos de Cães e Maus Lobos é uma obra-prima emocionante (Biblioteca azul, 2019). No feriado recente de Corpus Christi terminei, emocionado, O Nosso Reino (Biblioteca Azul, 2018). Valter veio ao mundo para mostrar novas possibilidades de olhar e de sentir e, também, para nos reconduzir a uma necessária humildade diante da contemplação do talento narrativo dele.

Sempre há muito para descobrir. Fiz uma indicação de coisas que me tocaram nos últimos meses de leituras. O benefício de estar com um bom texto nas mãos e aprender é, quase sempre, um dos grandes prazeres da vida. Se o sol se esconder no céu hibernal, abra seus olhos, janelas da alma, para o banquete das letras. Aqueça seu pensamento com lenha nova para fogos desafiadores. Ouse! Cresça! Leia! Bom domingo para todos nós!

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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