Artigos

A tragédia com o Museu Nacional

Os arquivos não são apenas guardiães dos documentos com valor histórico ou probatório, mas dos que estão nascendo agora pelas mãos e decisões dos nossos gestores públicos

Perder a memória é mesmo uma tragédia. Esquecemos de quem somos, de nossas origens e perdemos a possibilidade de dirigir nosso futuro. Isso acontece quando uma pessoa vai perdendo a memória — todos nós já vimos acontecer com alguém da nossa família ou conhecido. E com um povo? Um povo sem memória, não decide, não conduz seu futuro, é conduzido.

O incêndio do Museu Nacional, há pouco mais de um mês, nos lembra dessa tragédia da perda coletiva da memória. Não basta ficarmos sensibilizados e indignados. É preciso saber que, neste mesmo momento, há outros pedaços da nossa memória coletiva se perdendo no fogo do descaso. A propósito, como está o arquivo público da sua cidade, do seu estado, da sua empresa, de sua entidade?

Nossa história se produz hoje, com elementos do passado e do presente. Como afirmou o historiador polonês Bronislaw Geremek, “a identidade cultural é um direito do homem e só pode ser assegurado pela história e pela memória”. Os arquivos são esteios da memória coletiva, devem preservar e garantir que sejam acessíveis as informações sobre como os bens e os recursos públicos são tratados ao longo do tempo e sobre o cuidado — ou o descuido — com o patrimônio de todos nós, inclusive os museus.

Os arquivos não são apenas guardiães dos documentos com valor histórico ou probatório, mas dos que estão nascendo agora pelas mãos e decisões dos nossos gestores públicos. E não só nas atividades dos gabinetes, mas na delegacia do bairro, na escola da nossa rua, na unidade de saúde, hospital ou do centro de referência que utilizamos… No entanto, apenas 137 das 645 prefeituras de São Paulo possuem Arquivo Público — que é uma obrigação firmada na Constituição Federal de 1988. E menos da metade, 301 prefeituras regulamentaram a Lei de Acesso à Informação.

Dá pra melhorar: o Arquivo Público do Estado de São Paulo é o órgão central do sistema de arquivos do estado e está trabalhando para preservar a memória da administração pública estadual. Além disso é parceiro dos municípios e pode ser acionado para orientar a criação e aperfeiçoamento de seus arquivos e a implantação de políticas de gestão documental e de acesso à informação.

São os arquivos que podem nos livrar do esquecimento programado, isto é da ocultação deliberada de fatos e provas, e da memória obrigada — uma deturpação da memória quando apenas um fato ou aspecto é martelado na lembrança das pessoas, construindo um imaginário coletivo enganoso. Por isso podem nos ajudar, até mesmo, em nossas decisões de vida.

Fernando Padula Novaes é coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Comentários

CLASSICRUZEIRO