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A rainha da polenta

Artigo escrito por Vanderlei Testa, jornalista e publicitário
A rainha da polenta
Crédito da foto: Fotomontagem / VT

Vanderlei Testa

A “rainha da polenta” Carolina Ragogna é a nona que veio da Itália, filha do Amadeu e da Anna. Eles são de 1890, da Comuna de Mansuê, província de Treviso. Quem se lembra desse título dado a sua avó é o José Rubens Campagna, morador de Sorocaba. Albertino e Antônia Franco são os seus pais e de mais quatro irmãos, Ademir, Zenaide, João e Sueli.

A parteira tinha muito trabalho em nossa casa, conta José Rubens. Eles são do bairro Além Ponte na região de Pinheiros e redondezas da antiga fábrica Santa Maria. A jovem Carolina tinha 18 anos quando zarpou da Itália com destino ao Brasil. O sonho da mocinha fazia brilhar os seus olhos na viagem difícil em navio lotado de imigrantes. Como seria o país que prometia o “mel da doçura” de uma nova vida em solo brasileiro. Ao seu lado, João Campagna com 22 anos iluminava seus passos nas incertezas da terra desconhecida. Ele era de Treviso.

Do Centro de Imigração em São Paulo, foram para Macaúba, no interior de São Paulo. O futuro casamento de João e Carolina gerou nove filhos.

Vieram morar em Sorocaba. A cidade atraia espanhóis, italianos, libaneses, portugueses. Uma população de operários de indústrias têxteis, pequenas metalúrgicas fabricando ferraduras e enxadas, fábrica de chapéus, ajudava a economia dos empórios e agricultores. Foi lá na rua Conselheiro João Alfredo, 114, que o menino José Rubens nasceu. Sua nona, Carolina, morava na frente da sua casa. Essa rua é travessa da rua Campos Sales. Ruas de terra batida e terrenos grandes com plantações faziam a festa da criançada. José Rubens se lembra da enorme quantidade de bodes e cabras nas ruas. Seus pais, Rubens e Geni, avós e vários tios com suas famílias eram a maioria de moradores na chamada “rua das cabras”. As cabras serviam de alimento e de leite às crianças.

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O pai, Rubens Campagna, conseguiu o primeiro emprego nas indústrias Votorantim. O bondinho passava perto da sua casa ,em Pinheiros. Apesar de morar perto da Santa Maria, o seu destino foi ser operário têxtil a quilômetros de distância. O marido da dona Geni tinha sua prole para criar e todo esforço valia a pena. Em casa, a Geni lavava roupa para famílias do bairro. Um jeito de ajudar nas despesas dos cinco filhos. Um deles, o José Rubens, colocava as trouxas de roupas na cabeça e levava até as clientes da sua mãe.

Nas lembranças o José me relatou que o seu pai apesar de ser operário, aplicava injeções na vizinhança. Havia poucas farmácias em Sorocaba. A segurança no bairro facilitava a criançada para se divertir com peladas de futebol nos campinhos. O seu time se chamava “Cruzeirinho”.

Não havia portões ou cadeados. Apenas algumas cercas para as cabras e bodes não fugirem. Na vizinhança da rua Campos Sales, a padaria do “ seu Américo” enchia os olhos da criançada. Os doces na vitrine deixavam qualquer um louco de vontade de os ter na sua boca. Durante as madrugadas, o Américo ia com a sua charrete entregar pães e leite nas casas do bairro. José Rubens se recorda de que ninguém mexia na sacola dos vizinhos. Outro comércio conhecido era o “Armazém do seu Alexandre”.

Um dos moradores mais conhecidos, lembra José Rubens, era o “Zé dos bodes”. Só ele possuía mais de quinze animais e um bode reprodutor famoso. Sua rotina era levar suas cabras até às margens do rio Sorocaba ao lado dos trilhos do bondinho da Votorantim. Sua mãe dizia que o leite de cabra possuía vitaminas e deixava os filhos fortes e, por isso, também criava duas cabras leiteiras.

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A rua Conselheiro João Alfredo também faz parte da história da prima Cidinha Zambianco. Ela me contou que na sua infância e adolescência ia à casa da sua tia Carmem. E aproveitava para tomar café com bolo de fubá na casa dos meus pais, na rua Santa Maria, pertinho dali.

O Grupo Escolar Senador Vergueiro completou o ensino primário do José Rubens. A Igreja do Bom Jesus e frei Florêncio marcaram a sua adolescência. Fez a primeira comunhão e foi coroinha. Ajudava nas missas e deixava os seus pais orgulhosos em vê-lo no altar. José Rubens engraxou sapatos nos dias de feira da Santa Maria. Trabalhou em olarias e ingressou no Senai para ter uma profissão. Conseguiu se formar em mecânica. O primeiro emprego na antiga indústria Bornia fascinou sua vida até 1973. Nesse ano decidiu mudar para a Siderúrgica NS Aparecida. Durante anos trabalhou na siderúrgica e na Moto Peças, até se aposentar, em 1994.

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Deixei para o final do artigo a vida amorosa de José Rubens e Luiza Zudete Alves. Eles se casaram em 12 de junho de 1976. Dia dos namorados. José Rubens sentiu o peito bater forte quando estava na praça Coronel Fernando Prestes, admirando as moças dando voltas ao redor, como era costume. Os homens andavam em um sentido e as mulheres no sentido contrário. As paqueras aconteciam assim e dava casamento, como foi o caso deles. A Igreja do Bom Jesus recebeu o ex-coroinha todo engravatado para o juramento do amor eterno. Dessa feliz união nasceram dois filhos Fernando e Vitor Hugo. Hoje são avós de seis netos.

Luiza e José Rubens são leitores do jornal Cruzeiro do Sul há anos e assíduos desta coluna. Eles escolheram como símbolo de suas vidas a flor girassol, pois ela se alimenta da luz do sol como energia. O casal, que é participante ativo de movimentos religiosos, considera que também precisa ser luz e sal da terra na vida das pessoas. Luiza é catequista de adultos na Igreja N. Sª Aparecida, no Jardim Prestes de Barros, Vila Hortência. E José Rubens um incentivador nas suas amizades para que todos mantenham o isolamento social, usem máscaras e tomem a vacina. Como ele afirma: “Não vamos vacilar! Vamos vacinar!”

Vanderlei Testa é jornalista e publicitário. Escreve às terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul e aos sábados no www.blogvanderleitesta.com e www.facebook.com/artigosdovanderleitesta.

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