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A ‘plantação’ de chumbo da Saturnia

Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp-Sorocaba e escreve nesse espaço, quinzenalmente, às terças-feiras.

Desde o domingo dia 19 de agosto de 2018, quando o Fantástico, da TV Globo, mostrou o “garimpo” de chumbo num terreno de uma antiga fábrica de baterias de Sorocaba, muito tem se falado sobre o assunto. E muita preocupação tem aparecido por conta disso. O problema é que essa preocupação tem todo o fundamento.

A convite da TV TEM, fui ver a área na terça, dia 21. E o que existe lá é realmente um “garimpo”, ou seja, gente cavando a terra buscando achar algo de valor. No caso chumbo. Só que garimpos ocorrem em terras em que se extraem minérios naturais, que serão posteriormente beneficiados. No caso da área da Saturnia, a antiga fábrica sorocabana, são resíduos que estão enterrados. Muitos resíduos. É como se, por absurdo, a fábrica estivesse querendo plantá-los. Na verdade, a empresa queria escondê-los. E fazer isso como fizeram, num solo sem preparo nenhum, foi de uma irresponsabilidade sem tamanho.

Não se sabe ao certo quanto tem enterrado lá, nem desde quando a empresa usou esse artifício para se livrar de resíduos incômodos. O fato é que a empresa faliu em 2011 e desde então a área está abandonada. Na verdade não está abandonada, pois “garimpeiros” descobriram e estão, não se sabe há quanto tempo, extraindo de lá sua subsistência e, segundo a lenda, até pequenas fortunas. Existem vestígios inclusive que parte das escavações está sendo feitas com máquinas, provavelmente alugadas para facilitar a escavação. Queimadas são provocadas para tirar o mato de onde se pretende cavar, o que traz risco de incêndio ao entorno.

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Cobre e chumbo são praticamente os dois únicos metais importantes que o Brasil não é autossuficiente. A principal utilização do chumbo é justamente na fabricação de baterias automotivas. O chumbo na forma de eletrodos gera, junto com uma solução de ácido sulfúrico, a eletricidade que faz o carro pegar e manter funcionando, mesmo quando o carro não está, rádio e relógio, por exemplo. Quando a bateria fica arriada, ou seja, não funciona mais, trata-se de um resíduo perigoso, porque contém ácido e, logicamente, chumbo.

Ou seja, para atender a indústria automotiva crescente, o Brasil precisa de muito chumbo, porém não possui tanto assim. Essa dependência traz quatro possibilidades: 1) substituir chumbo por outro material; 2) importar chumbo; 3) reciclar chumbo e 4)importar e reciclar chumbo. Até pelas propriedades especiais e pelo preço do metal, sua substituição é improvável. Logo, importar mais é uma saída, mas reciclar é uma obrigação. Assim, o preço da sucata é elevado, fazendo com que pessoas cavem a terra buscando resíduos que contenham chumbo para vendê-lo a um preço provavelmente bem maior hoje que o que era praticado durante o enterramento do material.

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O garimpo de chumbo é um problema. É ilegal, pessoas estão fazendo sem o mínimo de segurança e proteção e foi avistada até uma criança fuçando na terra. Mas tem outro problema, muito mais grave: a contaminação do solo e das águas.

Considerando somente a data de fechamento da empresa, tem chovido há pelo menos sete anos no local. São sete anos em que a água, chamada de solvente universal pelos químicos, está entrando nesse solo e tendo contato com os resíduos de chumbo. Lógico que chumbo está sendo lixiviado, varrido pela água, que vai se infiltrando e segue por gravidade um caminho para chegar a um ponto mais baixo, um lençol subterrâneo ou até um riacho, córrego ou rio. Assim, pode ter contaminado águas subterrâneas (usadas para abastecimento público ou particular via poço) e até superficiais.

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Mas o que pode ser feito? O alarme já foi dado, agora são necessários estudos para determinar com precisão para onde essa a água foi e está indo. Medir a qualidade da água, para o chumbo inclusive, de todos os poços do entorno. Caracterizar o material, para ver o que tem dentro dele e seus teores. E por fim, remediar a área, com a remoção de tudo o que foi enterrado.

Tudo isso é possível fazer e existem técnicas consagradas para isso. O problema é quem vai pagar a conta, uma vez que a empresa faliu.

Sandro Donnini Mancini (mancini@sorocaba.unesp.br) é professor da Unesp-Sorocaba e escreve nesse espaço, quinzenalmente, às terças-feiras.

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