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A ousadia dos neologismos

Artigo de João Alvarenga, professor de Língua Portuguesa e mestre em Comunicação e Cultura

João Alvarenga

“O povo é o inventa palavras”. Essa frase, atribuída ao escritor João Guimarães Rosa, pertencente à terceira geração modernista, enfatiza o quanto a arte de criar vocábulos, o chamado “neologismo” (neo = novo + logismo = palavras. Logo, palavra nova), é algo muito recorrente não só na literatura, mas, também, na fala coloquial brasileira, ou seja, no discurso do povo. Quiçá, essa seja uma prática das mais ousadas. Afinal, em boa parte dos processos de construção das novas palavras do nosso idioma, o “inventor” ignora os mecanismos morfológicos que foram empregados para se chegar a tal composição.

Tanto que, para alguns, esse processo linguístico pode parecer um desrespeito às regras da norma culta, pois a gramática normativa brasileira é vista como rígida em muitos aspectos, principalmente no que tange à ortografia, a escrita correta das palavras. Aliás, isso é muito cobrado nos concursos públicos, vestibulares e Enem; porém, é notório que a própria língua portuguesa, paradoxalmente, oferece todas as substâncias necessárias para que os vocábulos sejam “‘inventados”.

Tanto que, a cada dia, “nasce” uma palavra nova que, na maioria das vezes, torna-se um modismo que cai nas graças do povo. Isso ocorre porque, no entender do saudoso professor sorocabano, Paulo Tortelo, “a língua pulsa na fala do povo”. Ou seja, em bom português, podemos dizer que o brasileiro tem mania de criar palavras ou expressões para quebrar a rotina do formalismo da linguagem culta. Isso justifica a presença de tantas gírias que povoam o imaginário popular, quase todas com a proposta de renovar a comunicação diária.

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A fim de exemplificar como isso acontece quase que de maneira natural e espontânea, recorremos à recém-formada “tecnossauros”, palavra presente numa reportagem publicada, há pouco tempo, neste jornal. Numa tradução literal, podemos observar que o termo em questão faz uma clara alusão aos aparelhos tecnológicos (vitrolas com discos de vinil, celulares analógicos ou aparelhos de TV antigos) que, em decorrência do progresso, tornaram-se peças de museus ou antiquários. Ou seja, obsoletas, que originou obsolescência. Para maior esclarecimento, observamos que tecno, como é possível perceber, remete à ideia de tecnologia. Já sauro, efetivamente, faz alusão aos gigantes dinossauros que foram extintos há milhões de anos.

Todavia, para quem gosta de refinamento, ou se sente aviltado, quando a expressão é oriunda do populacho, a título de ilustração, emprestamos uma das muitas “invenções” de Guimarães Rosa, o termo “Sagarana”, expressão que dá título a uma das principais obras desse brilhantíssimo escritor. Assim, temos: saga — palavra de origem nórdica que significa “aventura”. A esse termo, o autor agregou a expressão rana, oriunda da tradição indígena. Logo, numa interpretação livre: “aventura à moda indígena”.

Para que o leitor tenha uma ideia exata da dimensão da importância desse hábil inventor de palavras, em 2001, foi lançado o livro: “O léxico de Guimarães Rosa”, de autoria da professora de estilística Nilce Sant’anna Martins. No obra, a professora analisa mais de oito mil palavras formadas por esse autor mineiro, que foram incorporadas ao idioma. Aliás, Rosa, ao lado do também mineiro, Drummond, foi responsável pela modernidade do nosso idioma. No rol das invenções, pinçamos “nonada”, palavra de abertura do romance “Grande sertão: veredas”, que significa “coisa sem importância”, fusão de “non” (do português arcaico) com “nada”. Além de Rosa, a professora também faz referência a James Joyce, outro grande criador. De Drummond, temos “Esquipáticas” (esquisitas + antipáticas). Na próxima quinzena, focaremos a riqueza das gírias. Até lá!

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura, produz e apresenta, com Alessandra Santos, o programa Nossa língua sem segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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