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A ópera do mundo

Artigo escrito por Leandro Karnal, historiador e escritor
A ópera do mundo
Crédito da foto: Divulgação

Leandro Karnal

Machado costuma fazer digressões com personagens que surgem e desaparecem nos romances. Acho que é uma chance de ele falar de uma ideia que estava na sua cabeça genial e testar o público ou a narrativa. Muitos romances eram publicados aos poucos nos jornais e, só depois, tornados livros. Os voos paralelos, no autor de “Dom Casmurro”, possuem uma estrutura quase de um pequeno conto. No romance já citado, ele faz algo que também existe em narrativas como “A Igreja do Diabo”, “O Sermão do Diabo” ou “Adão e Eva”. Nos três, a figura do antagonista de Deus é bastante matizada e foge do caráter rancoroso e forma corpórea do mal absoluto. Por vezes, em poema menos inspirado e algo preconceituoso, Machado mostra mais misoginia do que horror a Satanás, como n’O Casamento do Diabo”, de 1863.

Voltemos às digressões. Elas são diferentes em Dostoievski. O “Grande Inquisidor”, narrativa dentro de “Os Irmãos Karamazov”, por exemplo, é quase um épico grandioso dos dilemas dos irmãos e sobre a natureza humana. No russo, é o cardeal católico que faz o papel de advogado cínico, ares de Mefisto. O silencioso Jesus é um misto de Messias e de símbolo da esperança do Bem. Ivan, o irmão que mostra a criação literária, quer provocar o piedoso Aliócha, porém, igualmente, deseja pensar de forma densa a ambiguidade de todos.

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Volto ao Rio de Janeiro. Em “Dom Casmurro”, estamos ainda conhecendo a personagem central Bento quando surge um tenor italiano, Marcolini. Neste momento, começa a digressão indicada no começo da minha crônica. Decadente e excluído, o europeu crê que tudo seja ópera. Vai mais fundo e narra ao ouvinte que nosso mundo é um grande espetáculo lírico. O libreto fora escrito por Deus, a música é de Satanás. O Todo-Poderoso aceitou encenar a estranha parceria, entretanto, não poderia ser no Céu. “Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias, coprimárias, coros e bailarinas.” Há, segundo a fantasia do italiano, alguns problemas. Notamos passagens nas quais o verso vai para a esquerda e a música, para a direita. Talvez seja para quebrar a monotonia de obra longa. É o caso do terceto do Éden ou os coros da guilhotina e da escravidão. Identificamos motivos que cansam por serem repetitivos. Ao final, o conjunto é tão magnífico que grandes autores (como Shakespeare) nada mais fizeram do que transcrever temas do libreto. São simples plagiadores! A encenação durará tanto quanto o planeta, terminando apenas quando o teatro for demolido “por razões astronômicas”. Parafraseei os capítulos 8, 9 e 10 de “Dom Casmurro”.

O mundo como um grande teatro é metáfora forte em Shakespeare (um imitador, segundo Marcolini). Na peça “Como Queiram” (As You Like It), o melancólico Jacques recita (Ato 2, cena 7) que “o mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas, que entram nele e saem” (All the world’s a stage, and all the men and women merely players. They have their exits and their entrances). Logo em seguida, a personagem enuncia a teoria das sete idades do homem, ampliando as etapas propostas no enigma da Esfinge (qual o animal que anda em quatro patas pela manhã, duas à tarde e três à noite? O homem que passa a infância engatinhando, vida adulta caminhando e velhice com bengala).

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Também o mundo da Contrarreforma explorou o tema do mundo-palco Calderón de la Barca, soldado, padre e escritor, escreveu um auto sacramental: “O Grande Teatro do Mundo”. A verdade estaria no autor, Deus, que acaba retirando as fantasias e máscaras de todos ao final. O Pobre, o Rico, o Rei, o Lavrador: todos exercem papéis determinados e devem fazer bem sua tarefa para merecer o Céu ou o Inferno. Em peça de temática similar, “A Vida é Sonho”, o autor espanhol do Século de Ouro pergunta: “¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción; y el mayor bien es pequeño; que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son‘.

A matéria da vida é o sonho. O já citado Shakespeare faz o Duque Próspero afirmar (“A Tempestade”) que “somos feitos da mesma matéria dos sonhos”. O Bardo achava o sono uma antessala, um prenúncio da morte, com o benefício de não ser definitivo.

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Machado, Shakespeare e Calderón, sentados em um bar do Cosme Velho, poderiam discutir seus sonhos, dreams y sueños. Seriam pesadelos ou doces delírios noturnos combinados de três gênios de épocas e lugares variados. Quem sabe este seja meu desejo onírico: ouvir o debate deles por horas e tentar ampliar minha imaginação ao limite do possível.

Retorno à ópera do mundo: que o diabo tenha escrito a música é fácil perceber. A autoria divina do libreto é mais complexa para demonstrar. A existência de papéis a cargo de falastrões é autodemonstrável. O grande teatro do mundo está atravessando uma entressafra de talentos.

Independentemente do debate da autoria ou da habilidade de todos nós, uma coisa é certa: temos literatura e esta ajuda a salvar muita coisa, mesmo quando todo o resto é ruim. Assim, em épocas de tragicomédia ou teatro de baixa qualidade, o refúgio é Machado, Shakespeare ou Calderón. Ópera bufa? Livros ajudam a passar o tempo e até a escolher melhor o próximo espetáculo. A caixa dos males do mundo, como a de Pandora, parece ter sido aberta. Resta, no fundo, a esperança, sempre com olhos assustados.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de “O Dilema do Porco-espinho”, entre outros.

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