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A literatura além da sala de aula

A criatividade do professor fará a diferença na “sobrevivência” da referida matéria

Engana-se aquele que pensa que o ensino de literatura está restrito apenas à sala de aula. Todavia, o paradigma vigente torna a disciplina refém de um modelo que não desperta o interesse dos alunos pela leitura de autores clássicos ou contemporâneos, algo se torna objeto de preocupação dos docentes, em decorrência da reforma do ensino médio, a partir das novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular, processo em curso no país.

Embora a matéria de Língua Portuguesa esteja contemplada pela reforma, os professores da área convivem com dúvidas sobre o futuro do ensino de literatura, diante desse novo contexto. Tanto que muitos questionam se tal ensino terá espaço, no cenário acadêmico, uma vez que o próprio Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) dispensa um tratamento de pouca relevância às obras consideradas fundamentais à cultura nacional, enquanto que assuntos de menos consistência se tornam mais preponderantes na referida prova.

Apesar dessa inquietação, os educadores devem aproveitar esse momento como uma rara oportunidade, para buscar novos métodos na transmissão do conteúdo, como sugeri no artigo anterior, pois a criatividade do professor fará a diferença na “sobrevivência” da referida matéria. O fundamental é mostrar que a literatura vai além dos limites da sala de aula, algo intenso que está na própria vida e que a arte de poetizar é, na verdade, um exercício de resistência do prazer estético.

Assim, esporadicamente, a escola pode receber autores locais para sessões de autógrafos, pequenas conversas literárias e oficinas de textos, além de depoimentos pessoais dos escritores. Nesses encontros, os escritores poderão expor as dificuldades que enfrentam para tornar público àquilo que escrevem. Na verdade, essas experiências só agregam pontos positivos à relação dos alunos com o professor e ao próprio conteúdo. Além disso, se por um lado, essas práticas quebram o paradigma de que a matéria só deve abordar autores consagrados (leia-se, falecidos), como uma espécie de “cultura necrófila”, na qual só se valoriza aqueles que partiram, por outro, tornam o exercício da escrita literária algo mais vívido e intenso.

Afinal, o próprio ambiente escolar abriga, entre seus alunos, jovens que não só se dedicam à leitura de poesias, como, também, ainda que timidamente, arriscam alguns versinhos. Ao ouvir o testemunho de outros escritores que estão no pleno exercício do ofício, o jovem autor se identifica com aquela realidade e passa a acreditar mais no seu potencial, além de encontrar respaldo entre seus colegas, que passam a respeitá-lo e a apoiá-lo em suas iniciativas artísticas. Isso acontece, também, com quem canta ou toca algum instrumento.

Desse modo, o problema não está na questão da sobrevivência do ensino dos autores nas escolas; mas na forma de como a matéria é apresentada aos alunos, pois se for exposta como algo estanque, não despertará interesse nenhum. Porém, se o aluno tomar com contato com a realidade, por meio dos textos, com certeza, encontrará motivos para entender que a literatura está além dos livros, pois faz parte da vida das pessoas e do próprio país.

Outro caminho salutar para inserir a leitura na vida não só de alunos, mas da sociedade, são as chamadas feiras literárias, como a FLAUS (Feira do Livro e Autores Sorocabanos), iniciativa de um grupo de autores liderados por Carlos Cavalheiro, ocorrida em dezembro último, em sua segunda edição, que já marcou território. A proposta pode parecer tímida, mas é louvável, pois os escritores nem sempre encontram o apoio necessário. Aliás, no próximo encontro, focarei as agruras que esses artistas enfrentam. Até lá!

João Alvarenga é professor de Língua Portuguesa, mestre em Comunicação e Cultura e, apresenta com Alessandra Santos, o programa Nossa Língua sem Segredos, que vai ao ar pela Cruzeiro FM (92,3 MHz), sempre às segundas-feiras, das 22h às 24h.

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