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‘A língua das mariposas’ na Fundec

É o terceiro da série de filmes espanhóis do Cine Reflexão
‘A língua das mariposas’ na Fundec
Don Gregorio e Moncho: o adulto de quem gostaríamos de ser discípulo e o menino que gostaríamos de ter como discípulo. Crédito da foto: Divulgação

Nildo Benedetti – nildo.maximo@hotmail.com

Dirigido pelo espanhol José Luís Cuerda, o filme foi estreado em 1999. É baseado na reunião de três contos do livro “¿Qué me quieres, amor?” (“Amor, o que você quer de mim?” em tradução livre) do escritor e poeta galego Manuel Rivas. São eles: “La lengua de las mariposas”, “Carmiña” e “Um saxo en la niebla (“A língua das mariposas”, “Carminha” e “Um saxofone na neblina”, em tradução livre).

O filme se passa nos meses que antecederam a Guerra Civil Espanhola. A educação das crianças na República de Espanha é agora secular, substituindo a antiga pedagogia que era adotada até a deposição da monarquia, em 1931, que havia sido basicamente eclesiástica católica e fortemente repressiva.

O menino Moncho, de sete anos, prepara-se para começar a frequentar a escola. As histórias do comportamento intimidador dos professores do velho sistema de ensino, contadas pelos pais e pelo irmão mais velho, deixam Moncho aterrorizado. A experiência de seu primeiro dia de aula é desastrosa: chamado pelo professor, Don Gregorio, que o recebe afetuosamente, urinou na calça, fugiu correndo da sala e se refugiou na floresta até à noite. Sua intenção era a de fugir para a América.

Don Gregório está próximo de se aposentar. É o mestre de quem todos gostariam de ter sido discípulos. É um anarquista que guarda em sua casa um surrado volume do livro “A conquista do pão”, de Piotr Kropotkin. Chega a pensar em emprestar o livro a Moncho, mas recua e empresta-lhe “A ilha do tesouro”, de Thomas Jefferson, mais adequado à idade do menino. Don Gregorio é alinhado com as ideias republicanas e tem no magistério sua vocação. Ensina com evidente paixão e tem por objetivo criar um cidadão livre, que aprecia o conhecimento, a liberdade, a natureza e as pessoas. Vai à casa de Moncho pedir-lhe desculpas pelo incidente do primeiro dia de aula e consegue persuadi-lo a retornar à escola. Seu método de ensino contrasta com a rigidez disciplinar do ensino religioso que antes vigorava na Espanha; com isso, consegue criar alunos — e Moncho é o melhor exemplo — curiosos e estimulados ao aprendizado.

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No local, simpatizantes de ideias de esquerda e de direita — republicanos, socialistas, anarquistas, fascistas, nacionalistas e outros — convivem com os atritos normais que ocorrem entre os que pensam diferentemente. Contudo, esse é um equilíbrio social precário, porque há um ambiente perceptível de conflitos latentes de ideias e que todos procuram superar, porque estamos em um lugar do interior da Galícia, em que os habitantes se conhecem, são amigos, são parentes.

Na festa de Carnaval, que transcorre em ambiente de grande alegria, a maior parte das pessoas está mascarada. Homens fantasiados de animais e animais fantasiados com adereços humanos. Mas, sem qualquer aviso, trovões e a chuva interrompem bruscamente o ambiente festivo. É metáfora da Espanha antes da Guerra Civil: todos convivendo alegremente, mas cada um escondido atrás de uma máscara, incluindo um padre. Entre os poucos que se mostram como realmente são, está Don Gregório.

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Serviço

Cine Reflexão
“A línguas das mariposa”, de José Luís Cuerda
Hoje, às 19h
Sala Fundec (rua Brigadeiro Tobias, 73)
Entrada gratuita

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