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A Itália de Draghi e as expectativas na União Europeia

Artigo escrito por Carmela Marcuzzo do Canto Cavalheiro, Universidade Federal do Pampa (Unipampa), câmpus Santana do Livramento (RS), área de Direito Internacional é doutora pela Universidade de Leiden/Países Baixos

Carmela Marcuzzo do Canto Cavalheiro

No ano de 2020, além das graves consequências da pandemia da Covid-19, a Itália também teve que negociar as difíceis exigências para receber subsídios do fundo europeu, tendo em vista as imposições de medidas de austeridade fiscal. A complexidade das negociações, no início do ano passado, suscitou uma especulação sobre possibilidade da saída dos Países Baixos (Nexit) da União Europeia (UE) diante de alguns desentendimentos sobre os critérios para adoção de auxílios. Segundo o ex-primeiro-ministro neerlandês, Mark Rutte, a França, Espanha e Itália deveriam reajustar suas economias como conditio sine qua non para obterem algum tipo de auxílio por parte do fundo europeu.

O diálogo em torno da criação de um fundo de emergência motivado pelos efeitos da pandemia como ocorreu na Itália com suas dramáticas consequências, ensejou o debate entre Áustria, Países Baixos, Suécia, Alemanha e Dinamarca para a criação do fundo. No entanto, mediante o compromisso dos Estados do sul da Europa adotarem as reformas em suas economias para a concessão de empréstimos mais favoráveis. Em um complexo cenário, assume como novo primeiro-ministro da Itália, Mário Draghi, com sua experiência como ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE). Draghi é uma das exceções, tratando-se de um dos raros políticos italianos que possui alta credibilidade no exterior e na Itália, apresenta um diálogo consistente com os Países Baixos sendo conhecido principalmente nesse Estado como administrador. Nas manchetes dos jornais neerlandeses, Draghi é noticiado como, “De enige Italiaan naar wie wordt geluisterd”, ou seja, o único italiano que é escutado.

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Existe uma forte expectativa em relação ao novo primeiro-ministro, em seu estilo de debate questionador deve haver debate com populistas, como Matteo Salvini, do partido de extrema-direita Liga Norte. Embora na atualidade haja um entendimento equivocado e exista uma tendência a utilizar a palavra populista como qualquer político que dialogue com as grandes massas e as agrade. É importante enfatizar que populismo é um conceito político e deve ser analisado de maneira criteriosa. Draghi deve debater com Salvini lembrando a posição do líder de extrema-direita que defende a antiglobalização, o direito à posse de armas e aos valores cristãos. Alguns analistas acreditam que a maioria no parlamento torna o novo primeiro-ministro menos dependente das intempéries de Salvini.

O fato de possuir apoio da maioria do parlamento confere a Draghi uma relevante característica para os italianos, “ser o homem certo no lugar certo”. Também é importante relembrar a trajetória do primeiro-ministro na condução de momentos que foram cruciais para a UE, como na condução da crise do mecanismo de taxa de câmbio europeu quando estava na posição de secretário-geral do Ministério das Finanças enfrentou árduas situações com a Itália entrando em colapso no início da década de 1990. Ao levar a cabo a privatização de várias empresas estatais, Draghi preparou a economia italiana para aderir ao euro. Internacionalmente, Draghi é conhecido como o “Super Mário”, pois em 2011, durante a crise do euro, sucedeu o francês Jean-Chaude Trichet como presidente do BCE.

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Para a UE a posição de Draghi como primeiro-ministro é uma maneira de assegurar que os investimentos e auxílios do bloco serão executados de forma consciente, observando valores com a austeridade fiscal. A pandemia somente agravou uma situação que já era complexa para a Itália, sendo classificada como “de zieke man van Europa”, isto é, o homem doente da Europa. Roma possui a segunda dívida mais alta da UE, 2,6 bilhões de euros, sendo 158% do seu Produto Interno Bruto (PIB), ficando atrás somente da Grécia. As credenciais do novo primeiro-ministro ganham uma significativa dimensão em um cenário com tantas adversidades a nível doméstico, intrabloco e globais.

Profa. dra. Carmela Marcuzzo do Canto Cavalheiro, Universidade Federal do Pampa (Unipampa), câmpus Santana do Livramento (RS), área de Direito Internacional é doutora pela Universidade de Leiden/Países Baixos.

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