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A diferença

A diferença
Crédito da foto: Pixabay

Leandro Karnal

Faz 20 anos que eu assisti a Nelson Freire pela primeira vez. Foi, na falta de termo mais forte, uma epifania. Por ironia do destino, uma das músicas daquela noite tinha sido minha peça de formatura no curso de piano. Em resumo, querida leitora e estimado leitor, eu não apenas descobri a extensão do talento do genial mineiro, assim como coloquei o meu em perspectiva.

Preciso revelar algo que guardei em secreto escaninho da alma. Após tantos anos de escalas, de Czerny e de Hanon, eu tinha terminado minha formação pianística. Minha professora, a austera irmã Maria Eloísa (sem H), ficou satisfeita porque o andamento, o uso de pedais, os sinais de expressão (piano, forte, etc.), a marcação de cada frase musical e os trinados estavam dentro do esperado pela partitura. Ela repetia algumas vezes a frase diante de uma bela cadência de Chopin: “Compor? Qualquer um pode. É uma técnica. A melodia, porém, é dom de Deus”. No exame final, tirei a nota máxima por ter cumprido a exigência que se fazia para isso: tocar tudo de cor. Era fim de tarde e, ao lado de uma estátua de Santa Cecília que ficava no corredor, eu comuniquei a minha veneranda mestra de toda vida que pretendia também fazer música como curso superior (já estava no curso de História). Ela foi rápida: “Não faça! Você será melhor escrevendo e falando do que tocando”. Foi uma das frases mais duras que meus tímpanos registraram. Como? Após mais de uma década ao lado dela quase diariamente, do livro de Ana Madalena até o Cravo Bem Temperado, ela dizia para eu não continuar com o piano? Não havia acabado de tirar nota máxima e com o registro imparcial de um metrônomo irritante acima do piano Schiedmayer? A religiosa percebeu meu espanto e me deu um conselho forte: ‘Você toca muito bem, ser pianista é outra coisa‘. Engoli a admoestação-crítica e segui a pé para casa, com o narciso ferido e o coração sangrando. A frase nunca saiu de minha memória e, anos depois, quase centenária, minha mestra faleceu. Naquela noite em que minha irmã comunicou a morte, sentei-me ao piano e toquei uma música que ela adorava, uma fantasia sobre um Te Deum conhecido entre alemães (Großer Gott, wir loben dich — Deus Eterno, a Vós Louvor).

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Volto ao dia em que ouvi Nelson Freire na Sala São Paulo. Era 1999. Eu já era doutor e professor da Unicamp. Minha carreira seguira totalmente apartada da música. Virei um “ouvinte qualificado”, com dedos cada vez mais duros e outras partes nem tanto. E então, de olhos fechados e absorto, ouvi Nelson Freire tocando. A primeira parte da música não tinha terminado e eu agradecia, emocionado, o conselho de irmã Maria Eloísa. Sim! Ela tivera clareza sobre o enorme abismo entre tocar e ser pianista. Nelson Freire era um pianista. Seus dedos acionavam os martelos e as cordas soavam com as mesmas notas que eu tocara, mas… o som era outro, completamente distinto. Ele falava a linguagem da música, ele se comunicava com as mãos. Eu tinha executado notas, corretas, no tempo adequado, como quem recita um poema de forma clara e tocante. Ele vivia a poesia das notas. Eu tocara Chopin, ele se tornara Chopin e bebia da mesma fonte do polonês para falar das estrelas, da alma humana, da dor, da morte, do amor, da sensibilidade, de atingir o inefável e compartilhar da beleza em seu estado puro. Eu era o acorrentado da caverna platônica que confundira sombras e sons com música. Nelson Freire brilhava ao sol radiante. Descobri a Sala São Paulo, descobri Nelson Freire, descobri a música e descobri a beleza.

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Vinte anos depois, no dia 8 de julho, véspera de feriado paulista, estive novamente na Sala São Paulo. Muita coisa mudara. Estou sem cabelos e os dedos ainda mais duros. Estou no camarote ao lado de pessoas como Arthur Nestrovski e o novo maestro da Osesp, Thierry Fischer. Novamente, ouço Nelson Freire, eu e ele duas décadas mais experientes. Quando o vi, ele tinha quase a idade que tenho hoje. Continua tímido e o público sempre parece um desafio para o músico. Toda a angústia e o medo terminam quando nosso pianista maior começa.

Um silêncio abissal reina, soberano. Surgem as primeiras notas e fala o Romantismo do século 19 com dedos do 21. É um milagre. Eu choro de forma calma, feliz. Agradeço novamente a minha mestra franciscana que me introduziu na harmonia e no contraponto. Dedico internamente o recital a ela, que tudo me ensinou em música e na vida. Pensei, ao final, no óbvio que todos desejam: poderia pedir ao Arthur e ir fazer uma foto com Nelson Freire no camarim. Depois pensei: para quê? Ele já falou tudo e já me ensinou tudo. Melhor partir em silêncio, ainda em clima de comunhão com a experiência vivida. Silente fui, grato e emocionado. O talento de Nelson Freire é mérito dele, a emoção de ter um brasileiro assim é nossa. A música que ele executa me faz querer ser melhor a cada nota, tornar-me menos mesquinho, impulsiona-me a descer da arrogância das pompas mundanas, despir-me do que nasce da minha insegurança e me elevar.

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Foi outra noite especial, como em 1999. Obrigado, Nelson Freire, por permitir que, por um breve período, gente comum como nós possa acessar a beleza. Parabéns, Osesp, pelos 20 anos da Sala São Paulo. Bienvenue, Monsieur Fischer. Viver é um privilégio. Boa semana para todos nós.

Leandro Karnal é articulista da Agência Estado.

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