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A canção da maçaneta

11 de Agosto de 2018 às 10:26

“Não há mais bela música que o ruido da maçaneta da porta quando meu filho volta para casa.”(Gioia Júnior)

Acredito que fechaduras caminham para o mesmo fim dos antigos telefones, aparelhos de fax, lâmpadas incandescentes e mimeógrafos. Fechaduras destinadas a permitir ou impedir acesso a prédios e seus compartimentos utilizam hoje dispositivos que em nada lembram aquela chave metálica composta de argola (ou pega), haste e palhetão denteado. Verdadeiros dinossauros eram enfiados no buraco para movimentar a lingueta e travar ou destravar portas. As do tipo yale resistem ao destino chaveirão. São menores e mais seguras. Impossibilitam voyeurismos e bisbilhotices. Espiar pelo buraco da fechadura virou anacronismo impossível.

Invenções que víamos em filmes, passaram a fazer parte do nosso dia a dia. Portas e gavetas abrem-se com apresentação da polpa digital ou aproximação da íris. Modernos automóveis são abertos e acionados com apenas um botão ou receptor de viva voz. Na primeira vez em que, em lugar de chave recebi um cartão eletrônico, não consegui acessar o aposento. Meio desenxabido, precisei voltar à recepção em busca de quem me ensinasse usar aquela novidade.

Quando fiz 16 anos meu pai entregou-me a chave da casa. Era uma peça comprida, de fechadura importada. Pelo tamanho, ficaria esquisita pendurada na cinta. Por sorte cabia no bolso do paletó, item obrigatório na vestimenta daqueles dias.

A entrega da chave parecia rito de passagem ou cumprimento de lei familiar não escrita. A vida era pacata nas cidades do interior. Apenas bêbados inconvenientes, presos por vadiagem ou autores de pequenas infrações eram trancafiados nas cadeias municipais. Trancar a casa somente quando não houvesse ninguém dentro dela. À noite, para entrada dos que chegavam após as dez, o costume era calçar a porta com uma cadeira. Servia para impedir abertura por ventania ou para que o arrastar da cadeira alertasse que o familiar notívago chegara.

Perto da nossa, a casa de meu irmão Oscar era mais moderna. Na porta voltada para a rua, a fechadura tipo Yale poderia exibir maior segurança contra gatunos. Acima dela, plaqueta metálica com a gravação “Steffen”. Usei o condicional “poderia” porque o conjunto exibia uma correntinha ligada ao trinco. Filhos, netos, parentes e amigos tinham livre acesso à hospitalidade do casal. Bastava puxar a correntinha. Depois era só um “ó de casa!”.

Os versos que ilustram este sabatino texto costumam emocionar os que têm a venturosa incumbência de preparar adolescentes e jovens para a vida. “A Oração da Maçaneta” é a poesia mais conhecida de seu autor. Rafael Gioia Júnior (1931 1996), cristão batista, advogado, maçom, jornalista, apresentador de televisão e político. Em várias ocasiões ocupou o púlpito da Igreja Presbiteriana de Sorocaba.

Neste Dia dos Pais 2018, lembrando Christiano João Martinho Steffen -- que na entrega da chave me concedeu liberdade simbiótica com responsabilidade por meus próprios atos -- homenageio todos os pais que recebem a missão de criar e orientar filhos(as) num mundo conturbado pela violência e distorção dos valores éticos cristãos. Que vocês possam orar como o poeta e descansar ao som da maçaneta ou do movimento da porta. Anunciações de que seu rebento está seguro na intimidade do lar.

Nem as vozes da orquestra / e o tilintar de copos / e a mansa canção da chuva no telhado / podem sequer se comparar / ao som da maçaneta que sorri/ quando seu filho volta./ Que ele retorne sempre são e salvo, marinheiro depois da tempestade/ a sorrir e a cantar. / E que na porta a maçaneta cante/ a festiva canção do seu retorno / que soa para mim como suave cantiga de ninar.

Só assim meu coração se aquieta,/ posso afinal dormir e descansar.

Feliz Dia dos Pais!

Edgard Steffen é médico pediatra e escreve aos sábados neste espaço -- [email protected]