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7 de setembro à margem de muitas histórias

Confira o artigo de Zé Feliciano

Chegamos a outro 7 setembro. Nas caravelas um desvio deu nestas terras e na independência, um grito. Desvios e Gritos. Há metáforas na História que precisam ser decifradas, quase dois séculos e continuamos gritando nas margens, nas ruas, escolas, filas, hospitais, dentro dos lares e, em vão, nos ouvidos surdos e plácidos dos nossos governantes que por razões esotéricas continuamos a reeleger: Independência ou morte! Ignorância ou Sorte?

Vamos sobrevivendo às muitas margens e poucas independências, colônias que somos do poder econômico mundial e até da ONU, ultimamente. O Brasil foi atropelado pela História e, pela condição do país, ela não prestou socorro. Desconfiados das promessas de sempre caminhamos para a próxima eleição para votar no quem tem aí. Um fim de feira de candidatos manjados e murchos. Xepa mesmo. Dá aproveitar?

Com a frequência de vice-presidentes assumindo o governo a cada mandato o PT inovou e lançou o vice ao invés do titular. Nunca antes na história deste país se teve uma chapa com o titular pedindo para votar no vice. E com descarada amnésia culpam outro governo pelos 13 anos que o PT mergulhou o país mais no grito que na independência. Mas não estão sozinhos; a incompetência é órfã de muitos pais.

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Originalíssimos candidatos carregam criancinhas, comem pastel na feira, tomam garapa e cafezinho em botecos e acham que isso é estar com o povo. Abraçam toda gente, riem, apertam mãos e até levam bolos de açaí para um único paciente num só hospital. Com indumentarias regionais comem buchada de bode, tomam goles de garrafadas, prometem limpar o nome dos devedores no SPC — ótimo exemplo para maus pagadores — juram que amam o povo, saúvas e sapos cururus, não necessariamente nessa ordem. Outros são tão amazonenses que deram à luz uma seringueira e amamentaram duas andirobas. Atitudes espontâneas, claro. Demagogia? Imagine… E os programas de governo? Modelo cardápio de prato feito, tem de tudo e suspeito. Mensagens de bolinhos da sorte japonês têm mais precisão. Deputados têm o tempo de um soluço. Lembra jogo de cartela: vote 72. Bingo!

Talvez seja a hora de lembrar que não são só os 76 incisos de direitos contidos no artigo 5º da Constituição brasileira — dos Direitos e garantias fundamentais — que devemos exigir, mas também os nossos deveres. O governo anterior fez todo seu discurso calcado nos direitos — todos os sabem de cor — e omitiu os deveres que também são parte da cidadania.

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Fazer plataformas políticas sobre direitos sem citar os deveres é demagogia perigosa e a maioria dos postulantes à presidência evita, quem não evita sobe nas pesquisas. Ouvir o que presidenciáveis pensam de verdade seria surpreendente.

O povo não é tolo. Verdade choca, mas não ofende. Quem sai nas ruas, dirige no trânsito; disputa vaga em coletivos, creches, empregos, hospitais, espera o filho(a) chegar da escola à noite sozinho(a) e faz as contas no fim do mês sabe que quem governa este país de fato é o pai e mãe de família. Não dá para pedir suplemento do orçamento: tem? Tem. Não tem? Só no mês que vem.

Chegamos a mais um 7 de setembro à margem de muitas histórias com a água pantanosa de um lago que pode ter sido superfaturado, a dívida pública a nos pedir independência ou morte econômica, o grito da corrupção que não sai da garganta, mais cavalos que cavaleiros e uma espada made in China. Não vai ser fácil.

Viva a independência do Brasil, viva a independência de tentar outras opções de governo.

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“Visite nossos museus históricos. A admissão é um 1 k de alimento não perecível e 1 extintor de incêndio.”

Zé Feliciano é escritor. Redator de humor e suspense. Leitor assíduo de códigos de barra. Médico nas reticências.

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