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André Tolentino

Um Brasil unido não se faz com boicotes

Uma coisa é discordar de alguém; outra, muito diferente, é tentar destruir sua atividade profissional, sua fonte de renda ou sua reputação

02 de Novembro de 2026 às 20:11
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Nos últimos dias, temos assistido a campanhas de demissão em massa e de boicote contra profissionais e empresas que, de alguma forma, declararam apoio a determinado campo político, especialmente à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Em Sorocaba, a discussão ganhou repercussão após manifestações da vereadora Tatiane Costa em favor desse tipo de prática.

São atitudes que merecem reflexão, porque uma coisa é discordar de alguém; outra, muito diferente, é tentar destruir sua atividade profissional, sua fonte de renda ou sua reputação por causa de suas convicções, conduta que ultrapassa os limites da liberdade de expressão e pode gerar responsabilidades civis e até criminais. A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira, mas exige que reconheçamos aos outros os mesmos direitos que reivindicamos para nós.

Nesse sentido, o Brasil também tem muito a refletir sobre os casos de assédio eleitoral no ambiente de trabalho. O Ministério Público do Trabalho e a Justiça do Trabalho vêm atuando contra empregadores que usam sua posição econômica para constranger funcionários a votar em determinado candidato. Em Sorocaba, a indústria química Ihara foi condenada pelo Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região ao pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos, em razão de práticas de assédio eleitoral durante as eleições de 2022, segundo o Ministério Público do Trabalho. Em outro caso, envolvendo a empresa proprietária da marca Ypê, a Justiça do Trabalho confirmou a obrigação de se abster de realizar propaganda eleitoral em favor de candidatos no ambiente de trabalho, sob pena de multa de R$ 100 mil por infração.

A gravidade desse tipo de conduta está justamente na desigualdade de forças entre as partes, em que o trabalhador pode até concordar publicamente com o patrão, mas, se o fizer por medo de perder o emprego, não estaremos diante de uma manifestação política livre.

Da mesma forma, o comerciante também não deve ser obrigado a esconder suas preferências para evitar perseguições, e o consumidor não pode ser tratado como inimigo por escolher um estabelecimento cujas posições políticas considera mais próximas das suas. A convivência democrática depende da compreensão de que a liberdade de um termina onde começa a tentativa de suprimir a liberdade do outro.

Também precisamos olhar com atenção para o comportamento das lideranças políticas, que detêm muito maior responsabilidade que o cidadão comum. A atitude de não reconhecer o resultado das urnas não pode ser vista apenas como uma manifestação de opinião, mas como um ataque frontal contra todo o sistema democrático, sobretudo quanto ao questionamento da prorrogação do horário de votação determinada pelo Supremo Tribunal Federal. O que torna essa contestação especialmente contraditória é que a própria campanha do candidato havia solicitado a extensão do horário em municípios atingidos por dificuldades de deslocamento dos eleitores. A decisão foi tomada em meio a relatos de problemas no transporte público e de condições climáticas adversas e não significou a reabertura indiscriminada de urnas já encerradas: foram registrados pouco mais de 34 mil votos depois das 17 horas em todo o país, enquanto a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro superou 4,4 milhões de votos.

Escolher um candidato nunca é simples. A decisão envolve sentimentos, promessas, experiências pessoais, valores e crenças, além de interesses econômicos que variam conforme a realidade de cada cidadão. O candidato que parece mais adequado ao empresário que trabalha com exportações pode não ser aquele que melhor atende aos interesses de quem depende de importações. O que um empregado espera de um governo pode não coincidir com as prioridades de um advogado, de um professor ou de um aposentado. Mesmo pessoas que compartilham os mesmos princípios podem divergir sobre os caminhos para alcançá-los. É justamente por isso que a democracia não pode exigir uniformidade de pensamento, mas deve garantir que essas diferenças sejam debatidas livremente.

O mesmo vale para a avaliação da honestidade dos candidatos. Em um ambiente político complexo, fotografias, relações pessoais, acusações e investigações precisam ser examinadas com cuidado, sem que a mera proximidade com alguém ou a existência de uma suspeita sejam automaticamente tratadas como prova de culpa. Temos instrumentos legais, entre eles a Lei da Ficha Limpa, para estabelecer critérios de elegibilidade e consequências jurídicas a partir de situações definidas em lei. Cabe à sociedade cobrar transparência, acompanhar os processos e exigir responsabilidade, sem abandonar o devido processo legal ou substituir a análise dos fatos por julgamentos feitos nas redes sociais.

O Partido dos Trabalhadores conquistou a Presidência da República com o apoio de diferentes setores da sociedade; contudo, na mesma eleição, perdeu governos estaduais, cadeiras no Senado e vagas na Câmara dos Deputados. A alternância de poder, a representação das minorias e a pluralidade política são partes essenciais do sistema democrático. Ganhar uma eleição não significa receber autorização para perseguir os adversários, assim como perder não retira de ninguém o direito de participar da vida pública. Muito pelo contrário: passamos todos a ser fiscais e a exigir condições melhores daqueles que foram eleitos.

Nesse sentido, merece especial destaque a postura do prefeito de Capela do Alto (SP), Henrique Leme, que publicou esta semana um vídeo defendendo a união e a harmonia dos cidadãos, posicionando-se contra a divulgação de listas para boicote e reconhecendo qualidades em pessoas de diferentes espectros políticos. Em um momento em que tantas manifestações parecem destinadas a aprofundar ressentimentos, uma liderança pública que procura aproximar pessoas, em vez de estimular a hostilidade, contribui para aquilo de que realmente precisamos agora em nosso país: a união pelo nosso povo e a fé em dias melhores.

André Tolentino é advogado, escritor, sócio efetivo da Academia Sorocabana de Letras e membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.