José Rodrigues Machado
Alegria da salvação
A salvação não nos torna parte da Trindade, mas nos reconcilia com Deus
Todos conhecemos a história daquele eunuco etíope, alto funcionário da rainha da Etiópia, que fora a Jerusalém para adorar. Essa história é mais conhecida como o batismo do eunuco. Ao retornar à sua terra, ele foi evangelizado e batizado por Filipe, conforme Atos 8.39: "Quando estavam saindo da água, o Espírito do Senhor, de repente, arrebatou a Filipe. O eunuco não o viu mais; contudo, pleno de alegria, seguiu o seu caminho".
Chama a nossa atenção o que se diz acerca desse homem após ser instruído sobre o Reino de Deus, a fé e o batismo. O texto afirma que, logo após receber essa instrução e ser batizado, ele seguiu "pleno de alegria". Essa é a última informação que temos a respeito daquele homem; nada mais as Escrituras dizem sobre ele. Entretanto, o fato de ter seguido o seu caminho "pleno de alegria" é muito relevante, pois nos permite refletir sobre a alegria que acompanha a salvação.
De fato, a salvação da alma, recebida pela fé em Cristo como nosso Salvador, mediante o arrependimento e a confissão dos nossos pecados, é um dos maiores bens que o ser humano pode experimentar. Ela nos reconcilia com Deus e nos conduz ao propósito para o qual fomos criados: viver em comunhão com Ele e glorificá-Lo.
A salvação, porém, não surgiu como um remendo para algo estragado, como um artifício para remediar uma situação imprevista ou como um paliativo para um mal que viria a acontecer. O plano da redenção faz parte do propósito eterno de Deus, estabelecido antes mesmo da criação do homem. Por isso, Deus não foi surpreendido pelo pecado humano. Logo após a queda, encontramos um sinal de seu cuidado para com o pecador: Deus fez roupas de pele para Adão e Eva, cobrindo sua nudez (Gn 3.21). Embora o texto não declare expressamente que esse ato tenha sido um sacrifício expiatório, podemos enxergar nele, à luz da revelação bíblica posterior, uma imagem que remete à necessidade de cobertura para o pecado e à obra redentora de Cristo.
O autor americano Larry Crabb, conhecido por seus livros sobre a vida cristã e o aconselhamento, apresenta uma ilustração imaginativa de uma conversa entre as pessoas da Trindade antes da criação do universo e do ser humano. Nessa representação, Deus diz: "Criemos seres vivos e dotados de capacidade de desfrutar plenamente de nós. Temos, porém, que levar em consideração o que isso demandará. Esses novos seres precisam ser criados com a liberdade de nos amar ou não".
Ao que o Espírito Santo teria dito: "Pai, tu sabes que esse ser irá te trair, pecar contra ti e te abandonar". Então, Jesus teria interferido: "Pai, leva teu plano adiante, pois, quando esse ser pecar contra ti, eu estarei lá para morrer por ele e resgatá-lo".
Essa narrativa deve ser entendida como uma ilustração, e não como o relato de uma conversa efetivamente registrada nas Escrituras. A Bíblia, entretanto, ensina que Deus nos escolheu em Cristo antes da criação do mundo, conforme Efésios 1.4: "Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença". O apóstolo Paulo também trata da adoção e da predestinação, segundo o propósito e a vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo (Ef 1.5-6). É nesse propósito eterno que encontramos a grandeza do plano da salvação.
Ao experimentar a salvação, o eunuco etíope seguiu o seu caminho pleno de alegria. Ele havia recebido a mensagem do Evangelho e demonstrava, por sua alegria, o impacto daquela experiência. A salvação nos proporciona uma alegria profunda porque nos conduz à verdadeira espiritualidade: uma vida de comunhão com Deus, de conhecimento de sua Palavra e de transformação à imagem de Cristo.
A salvação não nos torna parte da Trindade, mas nos reconcilia com Deus e nos permite desfrutar de comunhão com Ele. Jesus expressou esse propósito em sua oração sacerdotal: "Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um" (Jo 17.11). E prosseguiu, pedindo que seus discípulos tivessem em si mesmos a plenitude de sua alegria (Jo 17.13). Essa alegria nasce da comunhão com Deus, da imersão em sua Palavra, do conhecimento de sua graça e da experiência de viver segundo os valores do Reino.
O que mais chama a nossa atenção nessa linda história do eunuco é que a salvação não é um privilégio reservado a alguns. É uma dádiva oferecida a todos os que, reconhecendo seus pecados, se arrependem e, pela fé, recebem a Cristo como Salvador e Senhor. Foi possível ao ministro da Etiópia e continua sendo possível ao mais vil pecador, como eu e você, mediante a fé em Cristo.
É isso que a Palavra afirma por meio do evangelista João: "Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1.11-12).
A morte de Jesus foi a concretização histórica do plano divino de redenção. Quando, pela fé, recebemos a Cristo, somos reconciliados com Deus e passamos a desfrutar dos benefícios dessa salvação, que nos conduz a uma vida marcada pela alegria, mesmo em meio às dificuldades.
O pecado trouxe tristeza, decepções e angústia, pois representa uma ruptura entre Deus e o homem. A salvação, por sua vez, restabelece nossa comunhão com Deus e inaugura um processo de transformação no qual somos libertos do domínio do pecado e aprendemos a viver segundo a vontade divina. Isso não significa que todas as consequências do pecado, as dores ou as dificuldades da vida desapareçam imediatamente, mas que passamos a viver sob a graça de Deus, sustentados por sua presença e por sua esperança.
Que bem maior poderia experimentar o ser humano do que ser reconciliado com seu Criador? Por isso, Simeão, ao tomar o menino Jesus nos braços, declarou: "Ó Soberano, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo, pois os meus olhos já viram a tua salvação" (Lc 2.29-30). Essa declaração ficou conhecida como Nunc dimittis, expressão latina que significa "agora despedes".
Simeão contemplou a salvação prometida por Deus; o eunuco etíope experimentou a alegria decorrente de sua resposta à mensagem do Evangelho. E essa mesma salvação também pode ser experimentada por mim e por você. Basta crer em Cristo, recebê-Lo pela fé e confiar na graça de Deus. E, quando isso acontecer, poderemos seguir o nosso caminho com a alegria que nasce da salvação.
José Rodrigues Machado é pastor, advogado, jornalista e diretor do Instituto Teológico Quadrangular de Sorocaba