Justo Penteado Chacon
O envelhecer
Pela fragilidade geral, o idoso não tem equilíbrio para descer uma rampa de declive acentuado nem para subir uma de igual aclive
O envelhecer. Esse vocábulo, um infinitivo substantivado, ainda causa calafrios e certo medo às pessoas, especialmente às que já passaram dos 70 anos, pois, a partir dessa marca, tem-se a impressão de que o tempo passa mais rápido do que até então. Aliás, é comum dizer-se que o tempo não passa: voa! Falo por mim, que já estou chegando aos noventa. Quando atingi os setenta, já me surpreendia pensando no que seria da minha vida dali para a frente. Concluía: o que for, será!
Essa preocupação dos septuagenários, de alguns ou de todos, é normal, creio, pois temos consciência de que, em algum momento, partiremos. Como dizia minha saudosa mãe, "não ficaremos para semente"!
Após essa nada agradável introdução, falemos sobre os cuidados do idoso consigo mesmo e dos familiares para com ele. Afinal, o idoso sofre uma natural e substancial perda da qualidade de vida, justamente pela diminuição da vitalidade como um todo, o que o impede de fazer tudo aquilo que desejaria.
Sobre esses aspectos, lembro-me do doutor Godofredo Crozzara, médico geriatra e brincalhão, que dizia: "Idoso tropeça até em folha de papel". Claro que é uma brincadeira bem-intencionada. Não chega a tanto, mas a realidade não passa muito longe desse jocoso exemplo: se um idoso pisar em uma folha de papel ou de plástico ao caminhar sobre um piso polido, certamente poderá escorregar e cair. E, quando um idoso sofre uma queda, dificilmente sai ileso. O resultado pode ser uma dolorosa fratura e a consequente parceria com a cadeira de rodas.
Pela fragilidade geral, o idoso não tem equilíbrio para descer uma rampa de declive acentuado nem para subir uma de igual aclive. Pode caminhar com razoável equilíbrio sobre um piso plano, desde que não seja escorregadio.
Entre outras dificuldades, o idoso não tem perfeita noção da altura da superfície onde vai colocar um objeto. Várias vezes vi idosos que, depois de tomar café ou outra bebida, ao devolver a xícara ao pires ou o copo à mesa, acabavam batendo-os na borda. Isso é natural, pela deficiência geral. Também é muito comum machucar-se nas quinas "vivas" dos batentes das portas, bem como ferir-se nas maçanetas.
Tapetes e carpetes são dois "inimigos" que podem passar despercebidos, mas são "traiçoeiros", especialmente os do banheiro. Além deles, as escadas são obstáculos intransponíveis para quem já chegou à fase de restrições à mobilidade física. Se eu fosse enumerar tantas outras situações de risco no cotidiano de um idoso, certamente prolongaria demais este relato. Além disso, uma casa ou um apartamento que não tenha sido construído para receber a pessoa idosa terá várias "armadilhas", das quais o ancião poderá ser vítima. Uma simples esfoladela na pele resultará em uma mancha ou em um edema.
Basta acompanhar um idoso durante um dia comum para comprovar a quantidade de "perigos" pelos quais ele passa, desde que se levanta até o momento em que se deita, à noite. Se o observássemos durante vários dias, nos surpreenderíamos com a quantidade de sustos que ele daria ao seu observador ou cuidador.
Uma simples leitura deste texto bastará para que o abnegado leitor perceba a simplicidade deste escrito, ou seja, a ausência de termos científicos próprios do vocabulário da medicina. Como frisei no início, sou quase nonagenário. Tudo o que descrevi até aqui é fruto de minhas observações, constatações e experiência própria, acumulada ao longo dos decênios de minha agitada existência, pois não sou médico nem outro profissional da saúde.
Seria injusto não transmitir aos mais jovens alguns hábitos que poderão ser úteis e lhes permitir uma vida com qualidade e, quiçá, mais longa.
A pessoa espera a aposentadoria com ansiedade, o que não é nada anormal depois de trabalhar por mais de trinta anos. Todavia, é desaconselhável parar de vez e não fazer mais absolutamente nada. O ideal é mudar de atividade, fazer algo diferente, de preferência sem as severas exigências do vínculo empregatício.
Depois de mais de 35 anos de trabalho devidamente registrado, aposentei-me como bancário. Voltei a trabalhar em uma atividade completamente diferente, o que foi benéfico para minha saúde e gratificante. Envelhecer com qualidade de vida é o ideal!
O corpo e o cérebro precisam estar sempre ocupados: o corpo, em permanente movimento (exercícios físicos, caminhadas etc.); o cérebro, com leitura, escrita de textos e poesias, palavras cruzadas etc.
Pela minha experiência, sugiro que modalidades esportivas que exijam muito esforço (futebol, futsal, vôlei, bola ao cesto etc.) não sejam praticadas até idade avançada. Devem ser substituídas por modalidades que exijam menos esforço físico. Volto a lembrar: tudo o que aqui citei é resultado de minha própria experiência.
Justo Penteado Chacon é membro da Academia Sorocabana Maçônica de Artes, Ciências e Letras.