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Alexandre Garcia

Quatro anos

Lula, por sua vez, terá quatro anos sem poder recorrer à desculpa da "herança maldita"

28 de Outubro de 2026 às 21:01
jUROS
jUROS (Crédito: MAGNIFIC)

Lula não é novidade para o brasileiro. Ainda assim, no dia seguinte à reeleição, o mercado reagiu: a Bolsa despencou minutos após a abertura, e o dólar saltou de menos de 5 reais para quase 6. Os juros subiram para 15,25% ao ano, e o Tesouro precisou recomprar quase 15 bilhões de reais em títulos. Tudo isso na primeira manhã depois de a eleição confirmar Lula por mais quatro anos. Ora, não houve troca de um governo com Paulo Guedes por um governo Lula. Foi de Lula para Lula, uma simples continuidade. Por que, então, o susto? Que dificuldades macroeconômicas assustam quem opera com o capital das empresas abertas e com o mercado externo? Que mudanças esperam aqueles que acompanham as oscilações da Bolsa e do câmbio desde 2023, quando começou o terceiro mandato de Lula? Talvez seja justamente isto: não esperam mudança nenhuma. E, sem mudança, o que vem é mais endividamento público e mais déficits acumulados nas contas do governo.

Nestes dias, Lula tem repetido que "nós vamos mudar o jeito de governar este país". A frase é genérica e permite leituras diferentes. Não é crível que seja uma autocrítica. Também não é crível que ele vá cortar ministérios e despesas, rever programas sociais ou enfrentar o endividamento. Pode ser, ao contrário, uma ameaça. Lula fala em maior participação popular, algo que funciona na democracia direta da Suíça, mas que aqui pode soar como passar por cima do Congresso, onde estão os representantes do povo e dos Estados, e onde ele saiu desta eleição em minoria na Câmara e no Senado. Jânio Quadros, Collor e Dilma deram as costas ao Congresso e não terminaram bem. Terá sido essa incerteza que levou a Bolsa a acionar o circuit breaker e os investidores a buscar proteção no dólar e no ouro?

Há também as incertezas deixadas pelos dois debates. Na Band, Lula deu as costas para a câmera e cometeu o ato falho de dizer que "o Brasil acabou". Depois, na Globo, mostrou-se confuso com os temas do painel, não ouviu as respostas de Flávio, foi lento no raciocínio e cometeu outro ato falho, o de "acabar com a polícia". Lula já não é o político jovem e ágil de antes. É o presidente mais idoso da história do País e continua repetindo as mesmas ideias de gastança e de que o consumo gera crescimento, sem se preocupar com o endividamento. Seriam mais quatro anos agravando as consequências do desequilíbrio fiscal e da dívida pública.

A tudo isso se soma a insegurança jurídica e institucional criada pelo Supremo, acrescida da insegurança eleitoral agravada por Zanin. O primeiro turno entregou uma Câmara e boa parte do Senado alinhadas a Flávio, ou seja, um Congresso de oposição a Lula. Somam-se, então, dificuldades econômicas, jurídicas e políticas para o próximo quadriênio. Não se pode dizer, como no ato falho de Lula, que o Brasil acabou. Mas não vai ser fácil. Flávio, derrotado, livrou-se de herdar esse quadro. Lula, por sua vez, terá quatro anos sem poder recorrer à desculpa da "herança maldita".

Alexandre Garcia é jornalista.

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