Muitos jovens brasileiros sempre buscaram oportunidades de trabalho no setor privado, no empreendedorismo e, mais recentemente, nas startups. Hoje, contudo, vejo surgir um movimento que merece atenção: o serviço público volta a despertar grande interesse entre as novas gerações. Segundo a plataforma educacional Qconcursos, o número de matrículas em cursos preparatórios para concursos registrou alta de 173,8% no primeiro trimestre de 2026, em comparação com os últimos três meses de 2025.
Mais do que um fenômeno relacionado à estabilidade profissional, essa tendência pode representar o início de um novo ciclo de renovação geracional, com potencial para influenciar os rumos da administração pública da União, dos Estados e dos Municípios nas próximas décadas.
A dimensão dessa transformação é expressiva. A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 prevê a oferta de 163.802 vagas em concursos públicos federais, considerando tanto novas contratações quanto a reposição de cargos vagos em razão de aposentadorias, falecimentos e afastamentos. A esse contingente somam-se milhares de vagas abertas por governos estaduais e municipais, num ciclo robusto de ingresso de servidores. Instituições especializadas na área de concursos estimam que o Brasil registre cerca de nove milhões de inscrições por ano.
Estamos diante da possibilidade de renovar parte significativa dos quadros da administração pública justamente em um período marcado por profundas transformações tecnológicas, mudanças demográficas e novas demandas da sociedade. Na minha avaliação, o ingresso dessa nova geração é uma oportunidade para incorporar competências que se tornaram essenciais a um Estado moderno: domínio de tecnologias digitais, análise de dados, inteligência artificial, gestão orientada por evidências, inovação em serviços públicos e maior capacidade de dialogar com uma sociedade cada vez mais conectada e exigente.
Ao mesmo tempo, seria um equívoco imaginar que a renovação implique substituir a experiência acumulada ao longo de décadas. O verdadeiro avanço ocorre quando conhecimento institucional e inovação caminham juntos. Os servidores mais experientes conhecem profundamente a legislação, os processos administrativos, os mecanismos de controle e a complexidade da gestão pública. Os mais jovens chegam com novas metodologias, familiaridade tecnológica e disposição para transformar procedimentos. Essa combinação pode produzir uma administração pública mais eficiente, mais ágil e mais preparada para enfrentar os desafios contemporâneos.
Nesse contexto, ganha ainda mais relevância o modelo constitucional de ingresso por concurso público. Trata-se de um dos pilares mais importantes da profissionalização do Estado, pois premia o mérito, assegura igualdade de oportunidades aos candidatos e reduz significativamente o espaço para indicações políticas, fisiologismo e interferências eleitorais ou partidárias na ocupação dos cargos públicos. Esse aspecto costuma ser analisado sob a ótica dos candidatos, mas, na verdade, beneficia sobretudo a sociedade. Quando o acesso se dá por critérios objetivos, transparentes e baseados no conhecimento, fortalece-se a capacidade técnica da administração e amplia-se a confiança dos cidadãos nas instituições.
Da mesma forma, considero fundamental preservar o instituto da estabilidade dos servidores concursados. Muitas vezes incompreendida no debate público, ela não existe para proteger privilégios individuais. Sua finalidade é proteger o interesse coletivo. Ao garantir independência funcional, a estabilidade permite que o servidor execute políticas públicas com rigor técnico, continuidade administrativa e isenção, independentemente das mudanças de governo ou das alternâncias partidárias. Assim, contribui para que o Estado sirva à população, e não aos interesses circunstanciais de quem ocupa temporariamente o poder.
É evidente que a estabilidade não pode ser confundida com ausência de avaliação, metas ou responsabilização. O serviço público precisa evoluir continuamente, investir em capacitação permanente, incorporar indicadores de desempenho e estimular uma cultura de inovação. Modernizar a gestão significa qualificar pessoas, simplificar processos e utilizar melhor os recursos públicos.
O elevado número de concursos previsto para os próximos anos coincide com a chegada de uma geração que cresceu em ambiente digital, convive naturalmente com novas tecnologias e compreende a velocidade das transformações sociais. Se esse potencial for adequadamente aproveitado, poderemos formar um corpo de servidores cada vez mais preparado para construir políticas públicas inovadoras, eficientes e centradas nas necessidades dos cidadãos.
A transição geracional por meio de concursos não representa apenas a troca de pessoas, mas, principalmente, a possibilidade de renovar ideias, métodos e formas de gestão, preservando os valores republicanos que devem sustentar a administração pública. Quando mérito, estabilidade, inovação e experiência andam lado a lado, quem ganha é toda a sociedade brasileira.
Artur Marques é presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo.