Celso Ming
A tartaruga e a lebre; o PIB e a dívida
O problema é que a atual política econômica, baseada no desequilíbrio e no galope da dívida, em vez de voo de cruzeiro do PIB, não produz mais do que um reles voo de galinha
Quem ouve do presidente Lula a profissão de fé em sua política fiscal pode achar que o caminho está correto. Mas os fatos mostram o desencontro entre objetivo e consequência. Na entrevista que deu à Rede Globo, na condição de candidato a um novo mandato, Lula afirmou que o melhor tratamento para o controle da dívida é "garantir o crescimento econômico, e não cortar do pobre".
O primeiro engano é de perspectiva. Se é para obter melhora da vida do pobre, é preciso, antes, garantir equilíbrio nas contas públicas para que sobrem recursos para o social.
O segundo engano é o de que o crescimento da dívida constrói, por si só, o avanço do Produto Interno Bruto (PIB). Ele acrescentou: "Se você fizer dívida para construir um ativo para o País, é importante que você tenha uma dívida". O problema é que a atual política econômica, baseada no desequilíbrio e no galope da dívida, em vez de voo de cruzeiro do PIB, não produz mais do que um reles voo de galinha.
Na sexta-feira, o Banco Central divulgou seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), um indicador que antecipa o resultado do PIB. O que saiu foi um crescimento, em agosto, de apenas 0,3% sobre julho, e de apenas 1,6% em 12 meses. São números alguma coisa melhores do que os esperados, mas que embutem uma tração negativa da atividade econômica para o terceiro trimestre de -0,1% ou -0,2%. É o que preveem os analistas.
A Pesquisa Focus, o levantamento que o Banco Central faz semanalmente com pouco mais de cem consultores, aponta para todo este ano um avanço do PIB de 1,85% e para 2027, de 1,40%. E, no entanto, a dívida cresce quatro pontos porcentuais ao ano em termos reais (descontada a inflação). Nesse ritmo, a tartaruga nunca alcançará a lebre.
Ou seja, a atual política econômica não está contratando um avanço do PIB suficiente para conter o avanço da dívida pública. Para obter um crescimento de 3%, seria preciso aumentar o investimento dos atuais 17% ao ano para cerca de 22% da renda nacional. Isso exigiria conter o atual nível de gastança e contar também com entrada de capitais para tocar novos projetos
Os de sempre afirmam que grande parte do crescimento da dívida se deve aos juros escorchantes, e não a mais endividamento primário. Esse é um pedaço da verdade. Os juros só estão onde estão porque o governo gasta demais, em nome do resgate da pobreza. E não resgata o pobre de sua situação, já que está excessivamente endividado, como o País.
Ou seja, esta política econômica não consegue emplacar avanço consistente do PIB.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia
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