Vera Valsechi
Vai fazer uma roupa na Yvonne
Entre alfinetes, agulhas e muita linha corre solta a criatividade de uma mulher cheia de vida, cheia de estórias, cheia de humor (nem sempre bom)
Se você, um dia, resolver fazer uma roupa na Yvonne, prepare-se para uma experiência inesquecível. Não pense que entrar naquele ateliê da rua Cônego Januário Barbosa será uma tarefa comum e corriqueira. Longe disso! Você sairá de lá, uma outra pessoa.
"Angélica! Angélica! Passa prá mim este tecido bem direitinho! E não se esqueça de colocar mais um prato na mesa porque o Zé vem pra jantar."
Entre alfinetes, agulhas e muita linha corre solta a criatividade de uma mulher cheia de vida, cheia de estórias, cheia de humor (nem sempre bom).
"Isabelzinha, faz um café prá nós?"
Você chega com uma vaga ideia do vestido que quer e delega pra D. Yvonne a mágica tarefa de transformar seu sonho em realidade. Aí, ela deita e rola... Se fosse possível entrar no cérebro dessa talentosa artesã, veria seus neurônios competindo para ver qual o mais esperto, o mais criativo, o mais rápido!
"Raquel, o Aguiarzinho precisa de carona. Quando você for buscá-lo, pega prá mim mais alfinetes lá no Gilson? As meninas daqui parece que engolem os alfinetes!"
Nesse templo de trabalho, entre uma costura e outra, lembranças são emendadas, fatos aplicados, conselhos bordados. Fulano se mudou... Sicrano morreu... Derrubaram a casa prá fazer um prédio... A netinha de fulana está cada vez mais linda... O filho de Seu Beltrano se saiu tão inteligente... Quando eu era criança lá em São Paulo... No armazém do meu pai...
"Eliana, venha cá! Passe uma costurinha bem aqui. Você entendeu, né? E ande logo porque seu marido já chegou."
Sentar-se ao lado da Yvonne enquanto ela rasga panos, é preparar-se para voltar no tempo e entrar numa cápsula pilotada, às vezes por uma criança travessa, outras por uma jovem aventureira, sempre por uma mulher destemida.
"Maria, já franziu a fitinha que eu pedi?"
Se você chegar, e ela estiver lendo algo, pode ter certeza que ela está "fazendo a lição de casa". E nas Sagradas Escrituras que ela se abastece para continuar sua missão na terra. Dentro do livro sempre haverá folhas avulsas de artigos que Yvonne tem o maior prazer de compartilhar com você: mensagens recebidas, textos impressionantes, recortes de jornal.
"Sebastiana, onde está o saiote da noiva? Ela já vai chegar e a gente ainda nem mexeu no vestido dela."
Quando chega a hora da primeira prova do seu vestido, talvez você fique um pouco desapontada; parece ainda um pouco pobre, sem expressão. Calma! Muita calma nessa hora! O milagre ainda está por acontecer. Com a cabeça inclinada, Yvonne olha prá obra de arte que está apenas começando e deixa seus pensamentos viajarem por um lugar cheio de fitinhas, rendas, retalhos, pedras, botões, lãs, lantejoulas, vidrilhos, enfim, um mar sem fim de possibilidades.
"Mira, como vai indo o bordado da noiva de setembro?"
Ajusta aqui, acaricia o gato, solta a barra, conta uma piada, corta ali, se emociona, inverte o tecido, dá um telefonema, tinge o forro, dá uma receita, cria a bolsinha, tira um cochilo, forra o cinto, pede água, rasga outro pano, come uma fruta, desmancha a costura, dá um conselho, larga tudo prá procurar o Luiz.
"Marizinha, me traz uma agulha enfiada com aquela linha cor-de-rosa horrorosa que só serve pra alinhavar."
O tempo passa prá você de acordo com o seu relógio. O tempo passa prá Yvonne de acordo com as batidas do coração dela: às vezes compassado, às vezes mais lento, às vezes às carreiras. Não tente acertar seus ponteiros com os dela porque a defasagem será constante. Ela é ímpar até nesse pormenor.
"Aline, você é nova aqui. Se tiver paciência e quiser aprender, esta é uma grande escola. E agora, descostura o cós deste jeans prá mim."
Finalmente, poucas horas antes daquele grande evento que fez você procurar esta grande modista, seu sonho estará pronto, arrematado, cerzido com as prosas de uma mulher que ama o que faz, incansável na busca de lhe oferecer o melhor, simples na condução da própria vida, generosa nas relações humanas, descomplicada e, ao mesmo tempo, complexa.
Quando sua vida estiver um pouco sem sal, quando as queixas forem mais abundantes do que os louvores, quando a dureza quiser se instalar no seu coração, quando precisar de colo, quando quiser rechear sua vida com cores, quando quiser descomplicar as coisas, quando quiser enxergar com mais clareza, quando quiser salpicar brilho nos seus dias, quando quiser aprender a ser mais humana, vai fazer uma roupa na Yvonne.
Vera Valsechi é professora. Ela escreveu este texto em julho 2008 para enaltecer Yvonne Aguiar - costureira e artista dos tecidos de Sorocaba -, que faleceu no dia 30 de setembro 2026.