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Renato de Oliveira Camargo Junior

Luzes e sombras da meritocracia

19 de Setembro de 2026 às 21:13
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Poucos filmes traduziram tão bem o espírito meritocrático quanto "À Procura da Felicidade". Baseado na história de Chris Gardner, o filme acompanha um homem que enfrenta desemprego, dificuldades financeiras, e até a falta de um lugar para morar com o filho. Ainda assim, ele continua lutando. No final, consegue uma oportunidade de trabalho e muda sua vida.

Perseverança, disciplina e esforço são virtudes importantes. O problema começa quando transformamos uma verdade parcial em uma explicação completa da realidade. Afinal, será que todos aqueles que se esforçam terminam como Chris Gardner? O mundo realmente pode ser dividido entre vencedores que se esforçaram e perdedores que não fizeram o suficiente?

É nesse ponto que começamos a enxergar a face sombria da meritocracia.

Michael Sandel chama atenção para esse problema em "A tirania do mérito". Os vencedores passam a considerar suas conquistas exclusivamente como resultado de seus próprios esforços e, consequentemente, tendem a interpretar a situação dos que ficaram para trás da mesma maneira: se eu mereci chegar até aqui, eles também merecem estar onde estão.

Essa lógica ignora uma realidade óbvia: ninguém começa a corrida exatamente do mesmo lugar.

Alguns nasceram em famílias estruturadas; outros cresceram em ambientes profundamente disfuncionais. Alguns tiveram acesso a boas escolas, livros, tecnologia, viagens e cursos; outros precisaram trabalhar desde muito cedo para ajudar nas despesas de casa. Isso não significa que o esforço seja irrelevante. Significa apenas que ele não explica tudo.

Sandel identifica na meritocracia uma dificuldade profunda em reconhecer a dimensão da dádiva. Quanto mais atribuímos nossas conquistas exclusivamente ao mérito, menos percebemos quanto da nossa própria história foi recebido graciosamente. É exatamente sobre isto que Jesus nos ensina em Mateus 15.

Jesus estava cercado por uma multidão. Depois de três dias, a multidão não tinha o que comer. Jesus então chamou os discípulos e disse: "Tenho compaixão desta multidão. Já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer. Não quero mandá-los embora com fome, porque podem desfalecer no caminho" (Mateus 15:32).

Ele não pergunta por que aquelas pessoas não haviam levado comida. Não procura descobrir quais eram trabalhadoras e quais eram preguiçosas. Não estabelece critérios para separar os que mereciam dos que não mereciam. Jesus simplesmente enxerga pessoas vulneráveis diante dele e sente compaixão.

Isso não significa que Jesus fosse contrário ao trabalho, à responsabilidade ou ao esforço. A questão é outra: a necessidade humana não é sempre respondida pela lógica do merecimento.

Jesus então responde com outra pergunta: "Quantos pães vocês têm?" Sete pães e alguns peixes. Era pouco diante de uma multidão. Mas Jesus tomou aquilo que possuíam e fez algo profundamente significativo: deu graças. Esse pequeno detalhe da narrativa confronta diretamente a arrogância meritocrática. Ao agradecer, Jesus reconhece que aquilo que está em suas mãos é dádiva de Deus.

Quanto mais consciência temos da graça, menos espaço sobra para a arrogância. Por isso, o problema da meritocracia não se resolve demonizando o esforço, o trabalho ou a excelência. Precisamos recuperar uma categoria que nossa cultura tem dificuldade de assimilar: a dádiva.

Diante de Deus, a lógica do mérito nos coloca numa situação impossível. "Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus", escreve Paulo. Mas a frase não termina aí. Somos "justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3:23-24). Essa é a grande inversão do evangelho.

Jesus não morreu por pessoas que haviam acumulado méritos suficientes para serem amadas por Deus. Morreu por pecadores. Na cruz, o único verdadeiramente merecedor assumiu o lugar daqueles que nada poderiam reivindicar. E, ao ressuscitar, abriu diante de nós uma vida que não conquistamos, não compramos e jamais poderíamos exigir.

Por isso, não dá para viver pela graça diante de Deus e organizar toda a nossa vida pela lógica do mérito diante das pessoas. Trabalhe. Estude. Desenvolva seus talentos. Faça tudo com excelência. Reconheça também aqueles que se esforçam e recompense o bom trabalho sempre que puder. Mas nunca permita que suas conquistas façam você esquecer aquilo que o evangelho revela sobre todos nós: sem a graça de Deus não seríamos ninguém.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.