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João Alvarenga

O drama da progressão temática

O redator deve seguir neste ritmo: apresenta o assunto, progride com ele, retoma partes da ideia anterior, e progride com novas informações

18 de Setembro de 2026 às 21:28
aLUNO ESTUDANDO
aLUNO ESTUDANDO (Crédito: ARTE: AI)

Este artigo encerra a série de três abordagens sobre a "redação ideal", com foco na produção de textos para o Enem/vestibulares. Na primeira abordagem, tratei das armadilhas a que os candidatos estão sujeitos, quando tentam impressionar os corretores com uma linguagem excessivamente rebuscada. Isso, muitas vezes, torna o texto confuso ou enfadonho. No segundo momento, valorizei a leitura de mundo como ferramenta auxiliar na construção do chamado "banco de argumentos": citações de pensadores, séries ou filmes que estejam relacionados ao tema proposto pela banca. Com qual finalidade? Não só ilustrar, como alguns imaginam (ou esbanjar repertório), mas dar sustentação aos argumentos da tese.

Agora, a ênfase recai sobre um dos pontos mais críticos para quem deseja escrever bons textos, sem perder a linha de raciocínio. Refiro-me à "progressão temática". Aliás, para muitos estudantes, esse é o grande drama, pois nem sempre uma boa tese é a garantia de que o texto terá a fluidez desejada até a conclusão. A ideia, aqui, é tentar atenuar esse drama, a fim de garantir que as dificuldades sejam vencidas.

Para isso, o Enem é um bom exemplo, pois a prova de redação apresenta um grau evidente de pragmatismo. Isso a partir de sua própria estrutura. Observe: é proposto um tema de abrangência social (problema presente no comando), que deve gerar uma tese (1º parágrafo). Se há um problema, deve haver uma origem (2º parágrafo: as causas). Mas, quais são os impactos desse problema na sociedade? (3º parágrafo: as consequências). Portanto, deve haver uma solução (4º parágrafo).

Apesar desse esquema quadradinho, muitos alunos relatam que até conseguem começar bem a discussão sobre o tema da prova; mas, a partir do segundo parágrafo, o texto desanda, porque faltam argumentos ou se perdem na ausência de conexão com o pensamento adotado no início do texto. Pior, não há continuidade das ideias, como se o texto tivesse tido uma quebra "trágica" de sequência. Exemplo: repentinamente, o redator muda de assunto sem preparar o espírito do leitor.

Mas, afinal, como se caracteriza a tal da progressão temática? Explico: os professores são unânimes em definir essa parte da produção textual como algo essencialmente linear que mantém a própria estrutura da redação. Ou seja, são mecanismos de coesão textual, nos quais uma informação nova (rema) de uma frase se torna assunto principal (tema) da frase ou parágrafo seguinte. Isso evita que o candidato fique dando voltas em torno do assunto, sem avançar no pensamento crítico. Afinal, o texto deve progredir com informações novas (em seus parágrafos). Porém, enfatizo: sem jamais se distanciar do que foi dito no parágrafo anterior, a fim de não cair na cilada da contradição.

Para ser mais didático, convido o leitor a imaginar a seguinte situação: visualize uma locomotiva com seus vários vagões. A locomotiva é a tese, e os vagões são as demais partes do texto. Repare que todas as partes do trem estão interligadas por engrenagens que mantêm a unidade da composição nos trilhos. No caso da redação, os elementos de coesão garantem a conexão entre as partes do texto (macro e microestruturas). O redator deve seguir neste ritmo: apresenta o assunto, progride com ele, retoma partes da ideia anterior e progride com novas informações. Assim, sucessivamente. Próximo tema: elementos de coesão. Até o próximo encontro!

João Alvarenga é professor de redação.