Celso Ming
Juros caem em conta-gotas
A população está excessivamente endividada, o mercado de trabalho está esticado, e a inflação dos serviços continua resiliente
O comportamento indecente do Supremo aponta para enorme insegurança jurídica. Se isso é como foi no tribunal maior, o que não será nas instâncias inferiores? O ministro Flávio Dino reconheceu terça-feira que a corrupção nunca foi tão espalhada como agora no sistema judiciário do País.
Mas essa incerteza, ainda que gravíssima e com possíveis consequências para a economia, não entrou em consideração na decisão do Copom, entre as outras graves incertezas que cercam a economia do Brasil e do mundo.
Como se esperava, a decisão dos diretores do Banco Central na quarta-feira foi reduzir os juros básicos (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, graças a certa retração da inflação que, no entanto, não tende a se repetir.
No comunicado divulgado após a reunião, o Copom reiterou que o ambiente permanece incerto, o que exige "serenidade e cautela da política monetária".
A questão de fundo nem é a existência de incertezas, mas a ordem de grandeza dessas incertezas. Se essa é a densidade da neblina, mais complicada fica a calibragem dos juros destinada a combater a inflação.
Ninguém sabe, por exemplo, até onde vão as hostilidades no Oriente Médio e, em consequência, ninguém sabe quando a disparada dos preços do petróleo começará a ser revertida e, com ela, a alta generalizada dos preços globais.
Os países ricos, especialmente os Estados Unidos, estão fortemente endividados, fator que provoca a deterioração da qualidade dos títulos públicos, do valor patrimonial das reservas dos países e dos fundos de investimento.
O fenômeno climático desse feroz El Niño já começou a espalhar efeitos. Mas ainda se desconhece o tamanho dos estragos que serão causados sobre o mercado de alimentos.
E temos as incertezas nossas. Na terça-feira, o presidente Lula criticou o Banco Central por sua incapacidade de arrumar a economia, embora tenha uma administração autônoma.
Continua a ignorar que sua política fiscal gastadeira tira chão da política de juros do Banco Central, porque injeta dinheiro na economia enquanto a política do Copom é de restrição do volume de moeda na economia. A população está excessivamente endividada, o mercado de trabalho está esticado, e a inflação dos serviços continua resiliente.
Também desta vez, o Copom não cantou a caçapa seguinte de sua política. Nisso, seguiu tanto o Banco Central Europeu quanto o Fed (banco central dos Estados Unidos), que optaram pela alta dos juros sem, no entanto, antecipar os lances seguintes.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.