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Renato de Oliveira Camargo Junior

O maravilhoso design de Deus para o trabalho

O trabalho não é uma atividade indigna da espiritualidade; ele nasce da própria atividade criadora de Deus

05 de Setembro de 2026 às 20:06
Cruzeiro do Sul [email protected]
Ilustração sobre o trabalho
Ilustração sobre o trabalho (Crédito: MAGNIFIC)

Poucas coisas ocupam tanto espaço em nossas agendas quanto o trabalho. Passamos boa parte do dia trabalhando, pensando ou falando sobre ele. No ambiente profissional, experimentamos algumas de nossas maiores realizações, e também algumas das nossas maiores frustrações. Por isso mesmo, ele tem o poder de afetar diretamente nossa saúde física e emocional, além de moldar o nosso futuro.

Não obstante isso, nem todos o veem da mesma forma. Para alguns, ele não passa de um mal necessário, uma atividade desagradável que precisamos suportar para pagar as contas. Para outros, tornou-se praticamente a razão da existência. Trabalham para construir uma carreira, alcançar reconhecimento e acumular dinheiro, acreditando que, quando finalmente chegarem ao topo, encontrarão a satisfação que procuram.

Durante séculos, parte da cultura ocidental foi influenciada pela concepção grega de que o trabalho, especialmente o trabalho manual, pertencia às dimensões inferiores da existência. Hesíodo descrevia uma antiga Era de Ouro em que os seres humanos viviam sem a necessidade do trabalho penoso. Aristóteles, por sua vez, associava a vida mais elevada ao ócio necessário para a contemplação e a atividade política. Aos poucos, consolidou-se uma divisão entre atividades consideradas nobres e aquelas vistas como inferiores.

Vestígios dessa mentalidade continuam presentes entre nós. Algumas profissões conferem status; outras parecem constranger quem as exerce. Admiramos executivos, médicos, empresários e profissionais bem-sucedidos, enquanto podemos quase tornar invisíveis aqueles que limpam nossas casas, recolhem nosso lixo, servem nossa comida ou realizam trabalhos braçais. O valor atribuído à profissão acaba, muitas vezes, sendo transferido para o valor atribuído à própria pessoa.

A Bíblia, por sua vez, nos apresenta uma perspectiva única. Em suas primeiras páginas, antes do pecado aparecer e inaugurar o sofrimento, encontramos alguém trabalhando: "No sétimo dia Deus já havia concluído a obra que realizara, e nesse dia descansou."

(Gênesis 2:2)

Essa pequena informação muda radicalmente nossa compreensão sobre o assunto. O trabalho não surgiu como consequência do pecado. Ele já existia no paraíso. Mais do que isso: antes de ser uma atividade humana, o trabalho é apresentado como uma atividade divina. O primeiro trabalhador da Bíblia é o próprio Deus.

É por isso que Timothy Keller, ao refletir sobre a teologia bíblica do trabalho, afirma que sua dignidade decorre justamente do fato de que Deus trabalha e de que nós trabalhamos como seus representantes. O trabalho não é uma atividade indigna da espiritualidade; ele nasce da própria atividade criadora de Deus.

Quando observamos Gênesis 1, algumas características desse trabalho divino tornam-se evidentes. Deus trabalha com criatividade, fazendo surgir uma realidade extraordinariamente diversa. Trabalha com intensidade, desenvolvendo sua obra ao longo dos dias da criação. Trabalha com excelência, contemplando repetidamente aquilo que fez e declarando que era bom. E trabalha até a conclusão, pois o texto afirma que, no sétimo dia, havia terminado a obra que se propusera realizar.

Isso significa que nosso trabalho cotidiano pode refletir algo do próprio caráter de Deus. Podemos perguntar como realizar melhor aquilo que está sob nossa responsabilidade. Podemos criar em vez de apenas repetir, aperfeiçoar em vez de simplesmente cumprir tabela e terminar aquilo que começamos. A excelência estimulada pela fé cristã não depende da presença de alguém fiscalizando nosso desempenho. Trabalhamos para Deus.

O maravilhoso design de Deus para o trabalho não consiste em transformar nossa profissão no centro da existência, mas em permitir que, por meio dela, participemos daquilo que Ele está fazendo no mundo. Trabalhamos porque Deus trabalha; descansamos porque nossa vida não depende do nosso trabalho; e temos esperança porque, em Jesus Cristo, sabemos que nosso trabalho no Senhor jamais será em vão.

Renato de Oliveira Camargo Junior, é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.