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André Tolentino

O futuro do Sandro já foi decidido, agora precisamos discutir o zoológico

04 de Setembro de 2026 às 20:22
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Como morador de Sorocaba, é óbvio que preferia a permanência do elefante Sandro no nosso Quinzinho, onde me acostumei a vê-lo. Contudo, após a análise das mais de 3 mil páginas do processo que pediu sua transferência, pela qualidade e pela quantidade das provas apresentadas, ficou óbvio que o melhor para ele é mesmo a transferência solicitada pelo Ministério Público, tendo em vista tantas omissões por parte da Prefeitura de Sorocaba.

Agora, com a decisão confirmada por unanimidade pelos Desembargadores e com data da mudança agendada, é hora de encerrar a disputa emocional e começar uma discussão séria sobre a situação do nosso zoológico.

Primeiramente, é preciso fugir do "circo" que alguns políticos e influenciadores transformaram essa importante questão. A decisão judicial não nasceu de um vídeo nas redes sociais, de uma campanha de internet ou da opinião de ativistas, ela foi construída sobre um processo que ultrapassou três mil páginas, com ampla produção de provas, perícias, laudos técnicos, inspeções e pareceres elaborados ao longo de anos. Foram analisadas as condições do recinto do Zoológico Quinzinho de Barros, a estrutura do Santuário de Elefantes Brasil, os riscos da transferência, os protocolos de transporte e o estado de saúde do próprio Sandro. A Prefeitura de Sorocaba participou de todas as fases do processo, apresentou defesa, produziu provas, interpôs recursos e exerceu plenamente o contraditório.

Por fim, tanto o Juízo de Primeira Instância quanto o Tribunal de Justiça de São Paulo, por unanimidade, decidiram pela transferência, não por impulso ideológico, mas pela obviedade dos fatos.

Ao mesmo tempo, todo esse período poderia ter servido para algo ainda mais importante, melhorar efetivamente as condições do zoológico.

Respeito profundamente o trabalho dos servidores, veterinários, biólogos e tratadores que diariamente dedicam suas vidas aos animais, cuja crítica não é dirigida a esses profissionais, mas à administração daqueles espaços.

Porque, por mais que aleguem que tudo funcionava adequadamente, essa não foi a realidade que emergiu do conjunto probatório analisado pela Justiça. Tampouco é essa a impressão de quem frequenta o zoológico com alguma regularidade.

Quem visita o Quinzinho de Barros percebe que aquele espaço, que durante décadas foi motivo de orgulho para Sorocaba e referência nacional, perdeu parte de sua vitalidade, passa uma sensação evidente de abandono, com estruturas envelhecidas, recintos que há muito tempo pedem modernização, pouca inovação, ausência de investimentos perceptíveis e um patrimônio ambiental que parece caminhar lentamente para a decadência.

É difícil compreender como um espaço público dessa importância permanece sem uma política consistente de revitalização. Não há sequer cobrança de ingresso, parece que por falta de licitação, eliminando uma possível fonte de recursos para manutenção e investimentos.

Independentemente da posição que cada um tinha sobre a permanência de Sandro, uma pergunta permanece sem resposta, por que então as melhorias não foram feitas ao longo desses anos?

Se amanhã acontecer qualquer intercorrência com Sandro, no transporte ou no santuário, será impossível ignorar que sua história foi marcada por anos de discussões enquanto as melhorias necessárias no recinto continuavam sendo adiadas. Em vez de concentrar esforços na qualificação do ambiente em que o animal vivia, a Administração preferiu prolongar uma batalha judicial e transformar o caso em um grande espetáculo midiático, alimentando uma narrativa que rendia curtidas, compartilhamentos e capital político.

Agora que a decisão já foi tomada, será um enorme erro fingir que o problema vai embora com ele. O zoológico continua aqui e, nele, permanecem centenas de animais que dependem integralmente das decisões tomadas pelo Poder Público para garantir seu bem-estar e, desta forma, para que também não sejam transferidos para outros santuários.

Por isso, entendo que a Câmara Municipal deve assumir seu papel constitucional de fiscalização.

Este é o momento de discutir seriamente a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a gestão do Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, a fim de que justifiquem a razão das benfeitorias nunca terem sido executadas, verificar a situação das licitações e contratos relacionados ao parque, entender como vêm sendo aplicados os recursos públicos destinados ao zoológico, avaliar as condições atuais dos recintos, ouvir técnicos independentes, conhecer a real situação dos animais e identificar quais investimentos são urgentes para devolver ao Quinzinho de Barros a excelência que um dia fez dele referência nacional.

O Caso Sandro é só mais um alerta de que precisamos olhar melhor para o nosso zoológico.

André Tolentino é advogado, escritor, sócio efetivo da Academia Sorocabana de Letras e membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.