Celso Ming
Voo de galinha
Cerca de 50% dos consumidores estão endividados. Longe de desenrolar, o Desenrola tem cara de Reenrola
Até agora, o presidente Lula parece não ter entendido que sua política econômica populista tromba com o que ele pretende alcançar: tromba com o aumento do emprego e do poder aquisitivo real do trabalhador e das classes médias.
A gastança de cunho distributivista hoje adotada vai reduzindo o potencial de crescimento sustentável da economia. É o que alguns economistas chamam de síndrome do voo de galinha.
Neste ano, é provável que o avanço do PIB se aproxime dos 2%. Mas 2027 e 2028 apontam para nova desaceleração.
No segundo trimestre deste ano, apesar dos incentivos ao crédito e dos benefícios fiscais despejados na economia, o consumo das famílias apresentou recuo de 0,4%.
Cerca de 50% dos consumidores estão endividados. Longe de desenrolar, o Desenrola, criado pelo governo para facilitar a renegociação das dívidas, tem cara de Reenrola. A inadimplência das pessoas físicas, junto ao sistema financeiro, alcançou em julho nível recorde de 7,6%. E tem a quebradeira que atingiu grandes grupos do varejo.
Para esses e outros desastres, empresários, políticos e alguns analistas apontam o dedo para os juros escorchantes - a desculpa para explicar a disparada da dívida pública. Isso é atacar a quimioterapia e não o câncer.
Por trás da disparada dos juros, da dívida e da desorganização financeira da população está o rombo fiscal que trabalha contra a política monetária do Banco Central, o que exige o tratamento de choque do Copom para evitar que a inflação saia do controle.
O equilíbrio fiscal é pressuposto para qualquer política social. Com as contas públicas em desordem, o fôlego para tratar da emancipação da população de baixa renda é curto. E isso vale para qualquer orientação ideológica adotada por qualquer governo.
O Brasil opera com um baixo nível de poupança, não superior a 16,6% do PIB, como mostraram as Contas Nacionais do segundo trimestre. É um problema que não apenas restringe o investimento e, portanto, a produção futura. Restringe também a capacidade do Tesouro de refinanciar sua dívida. E essa é uma das razões pelas quais o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, explica o alto custo (superior a 8% ao ano, além da inflação) da colocação dos títulos.
O baixo nível de poupança, por sua vez, tem a ver com o consumo desordenado, induzido pela política econômica deste governo e dos que o precederam. Temos, assim, um problema estrutural, como o das asas da galinha que não conseguem mais que um voo rasteiro.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.