Celso Ming
Freio de arrumação já contratado
Não dá para prosseguir com a expansão desordenada do crédito, com objetivo de expandir o consumo e amolecer a boa vontade do eleitor
Eis que, quase de um dia para outro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que até agora acionou e acompanhou perdulariamente o festival de despesas eleitoreiras do presidente Lula, começa a mostrar preocupação com o destempero das finanças públicas.
Não só vem falando sobre a necessidade de preservar o arcabouço fiscal, se é que ainda há algo aí a preservar, como também vem recorrendo às experiências de dois baluartes da política econômica do governo do presidente Fernando Henrique, o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.
Pelo menos uma vez, o presidente Lula surpreendeu ao falar em necessidade de "seriedade na política fiscal", o que parece sugerir que esse seja um item em falta no governo.
O setor produtivo já não aguenta mais o custo do crédito. Grandes grupos do varejo, como as Casas Bahia, a Marabraz e Tok Stok abriram o bico; o grupo Pão de Açúcar e o St Marche Supermercados recorreram à recuperação extrajudicial. A inadimplência do agronegócio atingiu, em julho, 8,8% dos produtores.
Neste ambiente de alto endividamento das famílias e do baixo sucesso do programa Desenrola, não dá para prosseguir com a expansão desordenada do crédito, com objetivo de expandir o consumo e amolecer a boa vontade do eleitor.
As despesas com a Previdência Social já passaram de R$ 1 trilhão, crescem em ritmo superior ao da inflação e aumentam o engessamento da execução orçamentária do governo federal. Não estão claras as restrições que serão impostas ao sistema previdenciário, porque este é um assunto que nenhum candidato quer abordar em campanha eleitoral. No entanto, mesmo sem uma reforma mais profunda do sistema, parece inevitável que as aposentadorias acabem por ser desatreladas da evolução do salário mínimo.
E sabe-se lá que estragos o fenômeno El Niño também não vai aprontar na economia.
É uma paisagem que vem levando cada vez mais analistas da economia a prever uma freada de arrumação a partir de 2027, qualquer que venha a ser o novo piloto instalado no Palácio do Planalto em janeiro de 2027. Ou seja, já vai sendo contratado um conjunto de políticas com duplo objetivo: conter a forte expansão da dívida pública, que já vai para mais de 82% do PIB, e alinhar-se ao Banco Central no combate à inflação e, assim, abrir caminho para a queda dos juros.
Freio de arrumação implica desaceleração do crescimento econômico ou, até mesmo, certa recessão, que terá de ser entendida como transferência da conta dos atuais desarranjos administrativos para o resto da sociedade.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.