Carlos Pinto Neto
Literatura como missão: Euclides da Cunha, Lima Barreto e o Brasil em fraturas
A nossa lembrança volta-se inevitavelmente para o trágico episódio que vitimou Euclides da Cunha no dia 15 de agosto de 1909, tornando este o momento ideal para refletir sobre o peso e a atualidade de seu legado. A literatura, em seus momentos mais sublimes, transcende a mera estética para assumir um papel de denúncia e transformação. Tomando de empréstimo o brilhante conceito do historiador Nicolau Sevcenko, podemos enxergar a "Literatura como Missão" ao analisar as tensões sociais e a criação cultural durante a Primeira República no Brasil. Nesse cenário de profundas fraturas, dois gigantes projetaram em seus textos os conflitos de seu tempo: Euclides da Cunha e Lima Barreto.
A República Velha (1889-1930) foi um período de exclusão e instabilidade. A partir da Constituição de 1891, que instituiu o federalismo e o presidencialismo, o país foi governado por figuras como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, inaugurando uma sucessão de treze presidentes em meio a uma enorme desigualdade social. Essa disparidade foi o estopim para sucessivas revoltas, como a da Armada, do Contestado, da Chibata e da Vacina.
Dentre essas eclosões, a Guerra de Canudos (1896-1897) permanece como um marco incontornável. No sertão baiano, uma região desassistida pelo governo federal, mais de vinte mil seguidores de Antônio Conselheiro uniram-se numa luta messiânica que, em sua essência, combatia a fome, a miséria e a seca. Desse derramamento de sangue nasceu Os Sertões (1902), em que Euclides da Cunha relata a campanha militar dividindo a obra em "A terra", "O homem" e "A luta". Sob uma forte lente determinista e naturalista, Euclides eternizou a máxima: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Ele descreveu a dualidade desse homem que, parecendo dominado por uma "preguiça invencível", transfigura-se num "titã acobreado e potente" diante de qualquer exigência extenuante.
Se Euclides desnudou a alma do Brasil profundo e rural, coube a Afonso Henriques de Lima Barreto expor as chagas do Brasil urbano. Nascido em 1881, Lima Barreto trouxe para a literatura a perspectiva de quem conhecia a margem desde o berço: negro, de família pobre, neto de escrava alforriada e filho de pais vitimados por tragédias de saúde e mazelas mentais. Sua obra, de um realismo pungente, utilizou a ironia para escancarar o preconceito racial intolerável e as diferenças de classe. Como ele próprio anotou em seu diário íntimo, a capacidade mental dos negros era julgada "a priori", enquanto a dos brancos, "a posteriori".
Em seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Barreto acompanha um jovem negro do subúrbio cuja ambição de ser "doutor" esbarra incessantemente na discriminação, denunciando um país incapaz de integrar sua população negra após a abolição, além de fazer uma crítica ácida à Imprensa como "o quarto poder fora da Constituição". A consagração do autor viria com Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), que retrata a vida do ingênuo funcionário público e sua desilusão final após atuar voluntariamente na Revolta da Armada em defesa do governo de Floriano Peixoto.
Lima Barreto jamais abdicou de sua literatura investigativa e cortante. Em Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), ele borra as fronteiras entre ficção e documento para expor a hipocrisia civilizatória de forma extremamente atual. Em Clara dos Anjos (1948), romance póstumo, retratou o doloroso processo de uma jovem que descobre seu lugar em um Brasil onde o fantasma da escravidão ainda assombrava o destino das mulheres negras e pobres no início da modernização republicana. A dor pessoal do autor ficou ainda cravada no Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos, redigido durante sua segunda internação psiquiátrica entre 1919 e 1920.
Tanto Euclides da Cunha quanto Lima Barreto transformaram a escrita em uma missão sagrada. Um nos ermos áridos da Bahia, o outro nos subúrbios esquecidos do Rio de Janeiro. Ambos usaram a palavra para forçar o Brasil a encarar sua própria face, marcada pela desigualdade, pelo preconceito e pela violência de Estado. Honrar o legado desses mestres da nossa cultura é, acima de tudo, manter viva a capacidade de indignação e reflexão da nossa literatura.
Carlos Pinto Neto é advogado, secretário da Academia Sorocabana de Letras, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), Gabinete de Leitura Sorocabano, presidente do Instituto Cultural "José Aleixo Irmão" (ICJAI) e diretor de relações institucionais da GIA — União Cultural.