Buscar no Cruzeiro

Buscar

José Osmir Fiorelli

Sinfonia urbana

11 de Agosto de 2026 às 20:59
Cruzeiro do Sul [email protected]
placeholder
placeholder

O dinamismo da economia impulsiona impactante expansão vertical. Por toda a cidade, multiplicam-se novos e modernos edifícios e vicejam intermináveis restauros, ampliações, modificações, inevitáveis ou decorrentes de improvisação e falta de planejamento.

Estridentes "makitas" e britadeiras orquestram a metamorfose urbana. Progresso!

Corredores de transporte fazem-se espinhas dorsais das longas avenidas. Freios cantam. Motores assinalam suas presenças. Especialmente, mas não exclusivamente, em cruzamentos movimentados das principais artérias, impiedosos decibéis agridem os ouvidos de passantes, moradores e trabalhadores das imediações. Os tímpanos trepidam.

Píncaros da agressão sonora são produzidos por valentes e apressadíssimos motociclistas. Sem eles, o transporte das coisas miúdas colapsaria. Ases alucinados, flertam com o azar. Exibem-se em temerárias manobras perigosas. Acumulam intermináveis acidentes. A fatalidade os espreita. Replicam a "romaria de mutilados" cantada por Chico Buarque. Os escapamentos modificados desafiam as disposições legais e a temperança social, na persistente transformação de convivência em penitência, suportada pelos indefesos ouvintes. Não lhes ficam atrás os turbinados veículos de luxo, símbolos de poder econômico.

Nas madrugadas, nos momentos em que a paz se faz mandatória, roncos fustigam. Ferem, implacáveis, o precioso silêncio da noite e lhe impõem cicatrizes. Os moradores próximos às vias mais movimentadas convivem com a rotina da explosão a trafegar impune e a lhes roubar a preciosa tranquilidade indispensável ao metabolismo. Bebês acordam. Choram nos berços; solicitam o aconchego de pais cansados. Idosos de sono frágil despertam. Interrompido o descanso, amiúde sobrevém a eles incômoda insônia.

Nos bares, território natural de altos volumes, desenha-se outro mundo. A bebida, estimulada por enganosa e insidiosa propaganda, parceira fiel de outras dependências, escoa. Entorpecidos pelo álcool, motoristas partem para a roleta russa de prováveis colisões, catalisadas pela sonolência. Há até quem considere algum atropelamento como "culposo"! Longos silvos de ambulâncias rasgam a escuridão sagrada. Transportam-se vítimas. Socorrem-se mutilados e feridos.

Em diversos tipos de recintos testa-se a resistência dos frequentadores. Tremem as caixas acústicas, no limite das ferozes vibrações e reverberações, indispensáveis a um clima de festa, celebração, desenfreada alegria. O tempo, insensível, passará. Incontáveis jovens enfrentarão, a partir dos quarenta anos de idade (e chegarão estes, céleres!) irreversíveis dificuldades auditivas. Outros danos severos aos mecanismos mentais de atenção, sensação e percepção ganharão cronicidade. Padecerão do estreitamento de suas visões de mundo.

Também em locais públicos, para desespero dos moradores próximos, ainda que as autoridades tentem, de vez em quando, coibir o abuso, grandes grupos de indivíduos descontrolados e incontroláveis produzem e compartilham barulho, bebida e sexo, notadamente em periferias. Alimentam suas deploráveis poupanças de mediocridade, moeda fácil de adquirir, difícil de resgatar. Degradam corpo e espírito - essa entidade cuja compreensão lhes escapa. As consequências extrapolam o local e ampliam-se para os lares e locais de trabalho, em que os danos psíquicos se revelam.

Pasme-se: há treinamento para apreciar e gostar do inferno dantesco sonoro. Impensável há algumas poucas décadas. Três exemplos.

Eficazes centros de preparação: as "academias". Pessoas exercitam-se sob a tutela do barulho. O cérebro esvazia-se de qualquer pensamento que requeira algum resquício de concentração. A mente fixa-se nos movimentos estereotipados. Equipamentos sofisticados comandam os clientes. A estes frequentadores nada soará estranho: bares, baladas, "pancadões", som alto no veículo ou o que quer que seja. Alguns frequentadores socorrem-se com protetores auriculares e buscam preservar-se. Bem o fazem.

Outro centro preparador de futuros alucinados acústicos encontra-se em escolas. Educadores-animadores valem-se de barulho excepcional para atrair a atenção de alunos, desde as primeiras séries. Gritam. Colocam música em alto volume. As crianças aprendem a atribuir naturalidade a esse tipo de comportamento e estratégia. Subliminarmente, considerarão esse "o método" para se comunicar. O grito substitui a escassez de didática adequada para trabalhar com grupos. O condicionamento funciona.

O terceiro exemplo vê-se, comumente, em parques onde as pessoas correm ou caminham, pretensamente para manter contato com a natureza. Também em veículos, enquanto dirigem. No lar, durante os momentos de lazer ou trabalho doméstico. Munidas de dispositivos acopláveis aos ouvidos, sintonizam música (ou, simplesmente, sons monótonos, estereotipados) em alto volume. Recebem o som diretamente nos pontos de sensibilidade do aparelho auditivo. Estabelecem uma bolha acústica e fazem-se prisioneiras dela. A criatura domina o criador. Novamente, o condicionamento funciona.

Desnecessário lembrar que, se um ou ambos os pais praticam esses comportamentos, os filhos também o farão. Efeito de modelagem comportamental.

Milton Nascimento e Chico Buarque cantaram, na canção composta por este último em parceria com Gilberto Gil ("Cálice", de 1973, lançada em 1978): "silêncio na cidade não se escuta". De fato! Praticamente inexiste!

Tedioso enumerar os benefícios do silêncio. A compulsão a conviver com o barulho chega ao ponto de muitas pessoas encontrarem dificuldade para permanecer em ambientes calmos, convidativos à reflexão. Para elas, retomando a mesma canção, "o silêncio atordoa"!

Nesse contexto insere-se a sinfonia urbana, desprovida de confortadores e sutis adágios. Sinais dos tempos. Sim, afeta a qualidade e o estilo de vida.

José Osmir Fiorelli é psicólogo e emérito da Academia Sorocabana de Letras.