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Renato de OliveiraCamargo Junior

O benefício da dúvida

25 de Julho de 2026 às 20:00
Cruzeiro do Sul [email protected]
A importância da fé
A importância da fé (Crédito: MAGNIFIC)

Certa vez, um dos meus filhos me perguntou: "Pai, você tem certeza de que Deus existe?" Sentindo o peso existencial daquela pergunta, parei para refletir por alguns instantes, e respondi: "Não, filho. Eu não tenho certeza." E expliquei que certeza é uma categoria lógica e racional, dentro da qual não podemos reduzir Deus - um ser suprarracional.

Sentindo seu desconforto com minha sinceridade, conclui: "Não tenho certeza disso, mas creio".

Curioso, ele decidiu estender o diálogo, perguntando: "Mas, na prática, o que isto significa?". Eu disse: "Na prática, isto significa que eu tenho o suficiente para orar, para desejar obedecer Sua Palavra e para ter esperança, mas não o suficiente para viver uma vida inteira sem dúvidas."

Para muitos religiosos de carteirinha, a dúvida tem sido vista como uma inimiga da fé. Uma espécie de defeito moral ou de fraqueza espiritual que precisa ser eliminada o mais rapidamente possível. Mas será que essa percepção corresponde à realidade da vida?

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Barna revelou que as dúvidas fazem parte da experiência espiritual de uma parcela significativa dos fiéis. Isto só não fica mais evidente porque não temos o hábito de compartilhar esses pensamentos por aí por medo de sermos criticados.

A vida humana é complexa demais para ser vivida sem perguntas. As dúvidas surgem, principalmente, quando enfrentamos perdas, enfermidades, crises financeiras, relacionamentos rompidos ou situações que parecem incompatíveis com aquilo que acreditamos sobre Deus.

A Bíblia apresenta uma visão realista sobre o assunto. No encerramento do Evangelho de Mateus, os discípulos encontram Jesus ressuscitado no alto do monte da Galileia. O texto registra algo surpreendente: "Quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram." (Mateus 28:17) A cena é desconcertante. Eles não estavam diante de rumores ou teorias. Estavam diante do Cristo ressurreto. Ainda assim, duvidaram.

Ao invés de criticar aqueles que titubearam em seus corações, Jesus não disse absolutamente nada a respeito do assunto. Pelo contrário, seguiu em frente com a conversa e deu-lhes a conhecida Grande Comissão: "Vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

Isso nos ensina uma verdade libertadora: dúvidas fazem parte da espiritualidade. Não apenas porque somos limitados, mas porque a fé nunca foi construída sobre a pretensão de possuir respostas completas para todas as questões da existência. Fé não é controle absoluto. Fé é confiança suficiente para continuar caminhando mesmo quando não temos todas as respostas.

Talvez um dos maiores equívocos do nosso tempo seja acreditar que somente a certeza produz estabilidade. Nem sempre é assim. Em muitos casos, a busca obsessiva por certezas absolutas acaba produzindo ansiedade, intolerância e até mesmo fragilidade emocional. Quem acredita que precisa compreender tudo para confiar em Deus acaba nunca se rendendo aos seus pés.

Além disso, as dúvidas contêm um benefício oculto: elas nos empurram para uma fé mais pessoal. Muitas pessoas passam anos vivendo da fé herdada dos pais, dos avós ou de líderes espirituais que admiram. Porém, em algum momento, toda fé emprestada será testada. Surgirão perguntas que exigirão respostas próprias. Nesse momento, a dúvida deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade de aprofundamento.

Você tem percebido dúvidas se avolumando dentro de você? Lembre-se de que isso é extremamente comum. O problema não é ter dúvidas, mas permitir que elas o impeçam de continuar caminhando. Continue orando, adorando e servindo ao lado da sua comunidade de fé. Com o tempo, algumas perguntas encontrarão resposta; outras permanecerão abertas. Mas talvez essa seja justamente uma das maiores lições da espiritualidade cristã: Deus nunca prometeu que compreenderíamos tudo. Prometeu apenas que jamais caminharíamos sozinhos.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.