Adilson Cezar
A ferrovia, a nossa!
Toda árvore se mantém frondosa se suas raízes continuarem sólidas e profundas. Na sutileza dessas palavras se esconde uma verdade imutável. A história, se constantemente regada, recuperada, permanece e engrandece, caso contrário, o que deixamos cair no esquecimento, simplesmente fenece e apodrece. A gente de Sorocaba tem uma história grandiosa, que merece ser constantemente transmitida para que não caia no esquecimento. Dos inúmeros temas, hoje vamos nos concentrar naquele que denominamos de ferrovia. Para o sorocabano, uma época de glória. Criou-se uma ferrovia através da iniciativa privada e que iria se tornar em uma das mais extensas de nosso País. Representa um momento de esplendor, notável transformação, da sutil dependência do tropeirismo que nos trouxe a integração com outras regiões. Ela em essência é o significado de mudança de uma época de quando nossa produção agrícola se adapta à industrialização e desta o transporte e a riqueza econômica que nos traz grandes benefícios. Os anos passam e com isso esse sonho se transforma, com alternâncias, ora valorizada ora em decadência, mas a Estrada de Ferro Sorocabana, é expressão de grande conquista e leva o nome de nossa gente aos mais distantes rincões. A nossa população nesse período é constituída em sua maior parte de trabalhadores na ferrovia. Não importa se simples assentadores de dormentes, meros foguistas, ou altos administradores. A companhia sobrevive, graças à atuação pontual e dedicada de cada um desses seus funcionários. Ela não subsiste se houver ausência de algumas dessas classes. Uns dependem dos outros, mas graças a essa Estrada, a maioria da nossa população trabalhadora tem por denominador comum o ferroviário. Item básico para o período que chamamos de 2ª Revolução Industrial - produção em massa. Esse celebrado instante, traz grandes benefícios a toda nossa gente. Impactando tanto no setor econômico, político, social e expressão cultural da época. Não podemos deixar também cair no esquecimento, momentos de alegrias que foram vivenciados naquele período. No cotidiano, o passeio de trem! Para as crianças era uma festa, desde as correrias internas nos vagões, como apreciar externamente a passagem de um comboio. O apito, o sinal da fumaça da locomotiva, mexia com os ânimos de todos, ninguém ficava ausente... Neste havia vagões restaurantes, sanitários, dormitórios, enfim era uma reprodução do que precisávamos, em formato "miniatura". Os adolescentes, quantos não lembram os sinais das primeiras paixões que enfrentaram. Os idosos, não ficavam de fora! Sentados juntos, viam pelas janelas a passagem da paisagem, e pouco a pouco, nessa mesma posição, as mãos se juntavam. Ah! recordações e recordações, belas, agradáveis e até negativas. Mas não importa o motivo, tudo isso precisa ficar registrado. Não pode se perder. As novas gerações podem e devem, pelo menos nos contos, vivenciá-las. De qualquer forma o desenvolvimento tecnológico proporcionou oportunidades, da Maria Fumaça, as máquinas a diesel e a elétrica. Adquirimos do exterior trens que impactaram pela velocidade, luxo, capacidade, segurança, como os celebérrimos Ouro Branco e Ouro Verde. Desenvolvemos e construímos em função da necessidade extrema os célebres "trens da morte", que auxiliaram a combater a imposição ditatorial sobre São Paulo e erguemos nossa bandeira a favor da Constituição. Era uma Sorocaba esplêndida, transbordando ação, atitudes, iniciativas. Não era apenas o crescimento demográfico e sem o suporte técnico e a urbanização necessária para a adaptação e existência de uma vida melhor. Àqueles que desejam raciocinar, basta uma simples comparação. Muito podemos recuperar e demonstrar, mas não basta escrevermos, precisamos sim deixar um pouco de que cada um de nós acrescente a essa história, não imposta, mas construída no dia a dia por todos nós - é o nosso passado que se faz presente.
Deixemos agora o pretérito para enfrentar nossa dura realidade. Qual a impressão que nos causa ao adentrarmos em Sorocaba, transitando pela avenida Dom Aguirre, na altura da praça Lions e olhando, observamos a nossa exposição de "ferro velho". São trens de transporte, carga, etc., da antiga Sorocabana, reunidos a de outras distâncias. Aqueles bem informados sabem que existem iniciativas de recuperação, mas que aguardam muito tempo os necessários recursos... Passamos por baixo dos pontilhões da antiga Estrada de Ferro Sorocabana e o seu ramal Sorocaba-Votorantim e logo à frente descortinamos a imponente edificação da nossa Estação Ferroviária, que em um passado não muito longínquo, significou orgulho de nossa gente. Tudo em completa degradação, abandono... Pena que nossos olhos não conseguem enxergar um pouco mais atrás da mesma, aquele imenso parque ferroviário de outrora, sendo tomado por extenso matagal. Área nobre, no centro de nossa cidade que pode servir a multipropósitos e à semelhança de muitos que existem em outras cidades, são passivos de promover atrativos. Hoje, reflete desleixo. Se para um indivíduo comum, que dispõe de uma pequena moradia, a qual por qualquer motivo, foi deixada no abandono, a iniciativa de nossos órgãos governamentais é imediata - multa. Agora perguntamos e o patrimônio histórico tombado e abandonado, o seu dono é também multado? A resposta é simples: não, pois o proprietário não vai se auto multar. Raciocínio lógico, a Prefeitura, o Governo enfim o proprietário, não vai cometer essa tolice!
Sim, compreendemos, o que não entendemos é porque em havendo poderes independentes, aquele que cuida desses detalhes não determina na mesma condição de igualdade - não ao órgão responsável, mas sim para o titular nominal desse órgão. Aí sim teríamos a celeridade necessária para os nossos processos de preservação de nossos patrimônios. Cobramos sim a atuação de nossos responsáveis. Uma das grandes finalidades, da criação da GIA União Cultural, foi a de congregar esforços de diferentes entidades de cunho cultural e cívico para lutar pela preservação desse e de outros patrimônios que são as nossas raízes. O progresso é bem-vindo e precisamos estar dentro do contexto de nossa contemporaneidade, mas este não pode destruir nossa identidade. O ser sorocabano está entremeado nessa necessidade de manutenção de suas raízes, se desejar ser reconhecido, ou estará fadado ao desconhecimento, ou pior a uma interpretação ultrajante por parte daqueles que nos sucederem. Desta forma com o espírito de resiliência, a GIA União Cultural, vem preparando projetos culturais de recuperação, com os quais pretende brindar as nossas competentes autoridades, que certamente serão sábias em adotá-las - impactando dessa forma para sempre seus nomes em nosso processo histórico. Não importa se aceitam ou não, o que é relevante é a nossa iniciativa. Dessa prerrogativa nós não abrimos mão - registre-se, vamos cuidar das nossas raízes para que nós possamos no amanhã florescer ou reflorescer. Não importa, a ferrovia, a nossa, é um de nossos primeiros projetos. Preservar a memória de nossa gente querida e apresentar não apenas uma cidade gigantesca, mas escabrosa, perigosa de se viver e de não possuir atitudes de atendimento humano.
Adilson Cezar é presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba e membro do Conselho Superior da GIA União Cultural.