Celso Ming
Esta é a economia do cuidado
Nas voltas que o mundo dá, eis que começa a ser reconhecida a importância da chamada economia dos cuidados.
Não é coisa nova. Babás, enfermeiros e ajudantes pessoais existem desde o tempo das cavernas. A novidade são as imposições da demografia e da vida moderna, digamos assim.
A população envelhece, muita gente idosa mora sozinha e, até para trocar uma lâmpada, precisa de ajuda para não correr o risco de um tombo com suas consequências. Por aí, também, viaja o conceito do "marido de aluguel".
E têm as mudanças nas estruturas familiares que aumentaram a participação da mulher no mercado de trabalho, fator que vem transformando a relação entre oferta e demanda por cuidados.
Podem ser diretos, como ajudar um idoso a cuidar de sua vida pessoal, ou indiretos, como limpar a casa ou levar o cachorro para passear. Podem ser remunerados ou não, embora a maior parte não seja remunerada e recaia desproporcionalmente sobre as mulheres.
A última edição da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, do IBGE, mostra que 57,2 milhões de domicílios brasileiros (17%) enfrentam despesas com serviços domésticos e com algum tipo de prestação de cuidados.
Pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizada em 2019 em 64 países, verificou que, diariamente, são dedicadas 16,4 bilhões de horas a trabalho de cuidados não remunerados. Isso corresponde a 2 bilhões de pessoas trabalhando gratuitamente oito horas por dia. Pelos cálculos da OIT, se essa ocupação fosse remunerada por um salário mínimo por hora, equivaleria a 9% do Produto Interno Bruto (PIB)mundial, ou a US$ 11 trilhões.
No Brasil, o trabalho de cuidado remunerado é exercido majoritariamente por trabalhadoras domésticas. Em grande parte, atuam na informalidade, sem carteira assinada.
Em 2019, 14,2% das mulheres ocupadas trabalhavam em atividades domésticas remuneradas, como mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
Alguns países já começaram a formular políticas públicas voltadas à matéria. O Uruguai, pioneiro na América Latina, criou, em 2015, o Sistema Nacional Integrado de Cuidados (Snic), que reconhece o cuidado como direito. No Brasil, o governo regulamentou, em 2025, o Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida.
Diferentemente do modelo uruguaio, a adesão ao plano brasileiro ocorre de forma voluntária por Estados e municípios.
Pelas projeções da OIT, em 2030, 2,3 bilhões de pessoas necessitarão de cuidado. (Colaborou Geovana Bosak)
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.