JoãoAlvarenga
A redação ideal (parte 1)
O que, de fato, caracteriza um bom texto para passar nos principais vestibulares do país? Será que um vocabulário refinado, com citações de vários pensadores, é "passaporte" para ingressar na sonhada universidade? Afinal, qual é a redação ideal? Neste artigo, faremos uma análise do que realmente conta na hora de fazer uma boa redação. Para isso, tomei como ponto de partida uma polêmica, ocorrida, no início deste ano, que envolveu um candidato a uma vaga à Faculdade de Direito (USP) e a Fuvest.
Essa controvérsia não só ganhou repercussão, nas redes sociais, como chegou às raias dos tribunais brasileiros, depois que o candidato Luiz Henrique Bessa, 18 anos, teve sua redação reprovada pela banca da instituição. Segundo os examinadores: "não há indícios suficientes que demonstrem compreensão do tema, o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual".
Os professores foram taxativos: "houve uma preocupação maior com o uso de termos rebuscados e de citações eruditas do que com a clareza de argumentos." Ou seja, o redator não defendeu uma tese sobre o tema proposto pela prova: "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado".
No entanto, a celeuma se deu não pelo fato da reprova em si; mas porque os pais do garoto decidiram processar a Fuvest, sob a alegação de que a banca não soube entender a linha de pensamento do candidato. Mas, o caldo entornou mesmo, depois que os especialistas não só mantiveram o veredito, como chamaram a atenção para a falta de clareza do texto que, embora tivesse um vocabulário refinadíssimo, não atendia aos requeridos mínimos da prova: tese, desenvolvimento e conclusão.
Todavia, não se trata de condenar o candidato, posto que quem tem acesso à redação, fica com a impressão de que o jovem cresceu num lar cercado por uma riquíssima biblioteca, com as obras dos mais importantes pensadores de todos os tempos. Ou, então, quis impressionar a banca com beletrismo, com uma escrita 'démodé'.
Todavia, a questão, aqui, é outra, ou seja, escrever de forma clara, (com coesão e coerência), com todos os pré-requisitos que atendam às expectativas dos 'severos' examinadores dos vestibulares/ENEM. Traduzindo: escrever sem rodeios e deslizes gramaticais, tendo todo cuidado para não esvaziar a argumentação. Afinal, muitos corretores abominam abordagens que se parecem meros "relatórios", que dão a impressão de que candidato apenas fez o 'basicão'. Ou seja, não agregou nenhum pensamento crítico à proposta, nem sequer apresentou um repertório afinado ao tema.
Claro que escrever bem (e de forma eficiente) não é tarefa fácil, porque nenhum texto nasce pronto. Na verdade, dissertar, como dizem os especialistas, não é mero produto do acaso, ou apenas objeto de inspiração. Na verdade, a redação é fruto de muita transpiração, treino e dedicação, além de boa leitura.
Assim, nessas horas, um bom repertório (livros, filmes e séries) ajuda; porém, a questão está em como saber utilizar essas informações, a fim de que o texto não se torne uma sequência de citações sem sentido, como se deu com o candidato da Fuvest que teve a prova zerada, situação que motivou esta reflexão. Detalhe: no próximo artigo, passarei algumas dicas fundamentais sobre como construir bons argumentos. Até lá!
João Alvarenga é professor de Redação