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Carlos Pinto Neto

Música, rádio e história: A trajetória extraordinária de Norberto Bastos

26 de Junho de 2026 às 23:10
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 Jornal Cruzeiro do Sul, domingo, 08 de Outubro de 1972)
Jornal Cruzeiro do Sul, domingo, 08 de Outubro de 1972) (Crédito: REPRODUÇÃO)

A história de Sorocaba é repleta de personagens fascinantes, mas poucos reuniram tantos talentos e deixaram uma marca tão profunda quanto Norberto Amaral Bastos. Falecido na madrugada de 7 de outubro de 1972, aos 63 anos, em decorrência de problemas cardíacos, Norberto foi muito mais do que um exímio musicista; ele foi uma testemunha viva da história e um pioneiro em múltiplas frentes na sua terra natal.

A trajetória de Norberto começou com um drama familiar: ele foi abandonado logo após o nascimento na porta do Convento Santa Clara. No entanto, o destino lhe sorriu quando foi acolhido e criado por uma família cuja mãe adotiva era uma grande pianista. Foi sob o incentivo dela que ele desenvolveu uma relação visceral com a música.

Sua técnica e virtuosismo ao piano eram de impressionar e assombrar a todos. Norberto era conhecido por fazer verdadeiros "malabarismos" enquanto tocava, sendo capaz de girar o próprio corpo sem interromper a execução musical, além de ser um mestre da improvisação. Esse talento refinado abriu portas extraordinárias, em 1922, ele teve a honra de tocar piano para o rei da Bélgica em um baile memorável na capital paulista, oferecido pelo então governador Carlos de Campos.

Diante de tamanha genialidade, surgiram propostas tentadoras de outros países para que ele se dedicasse exclusivamente à arte do piano. Ele chegou a ser convidado para integrar a renomada orquestra argentina de tangos de Francisco Canaro.

Apesar do potencial claro para se transformar em um dos maiores pianistas do Brasil, Norberto recusou o estrelato internacional. Preferiu permanecer em Sorocaba para não abandonar sua velha mãe viúva e por causa do imenso afeto que nutria pela sua cidade natal, de onde nunca quis se afastar.

Um dos episódios mais marcantes e historicamente ricos de sua vida ocorreu no dia 7 de setembro de 1931. Norberto, que então morava na rua Maylaski, foi chamado por Renato Mascarenhas ao Cartório do 2º Ofício. Lá, ele serviu como testemunha oficial do testamento de Alberto Santos Dumont.

Norberto foi o último a assinar o documento antes do próprio tabelião. Em entrevista concedida ao jornal Cruzeiro do Sul em julho de 1960, ele relembrou que Santos Dumont parecia um homem fechado e de poucas palavras, e que na época da assinatura nem imaginava o quão famoso aquele ato se tornaria na história. Com o passar dos anos e o falecimento dos demais presentes, Norberto tornou-se a única testemunha viva daquele momento entre os sorocabanos.

A dedicação de Norberto à sua comunidade expressou-se em diversas profissões e hobbies ao longo dos anos. Em 1931, aceitou o convite de Renato Mascarenhas para trabalhar no cartório por sua impressionante velocidade de digitação, alcançando 100 palavras por minuto. O plano inicial era ficar três meses, mas ele acabou trabalhando ali por 10 anos. Mais tarde, ele também foi tido como o datilógrafo mais velho de Sorocaba.

Atuou ainda como funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana. Foi o primeiro locutor esportivo de Sorocaba, transmitindo por volta de 1935 ou 1936 o jogo entre São Bento e São Paulo (atual Estrada) pela rádio PRD-7. Na mesma emissora, atuou como diretor artístico por muitos anos e idealizou um prestigiado programa noturno de música erudita às segundas-feiras. Ele também teve seu nome historicamente ligado a eventos e colaborações em outras emissoras da região, como a PRD-9 (Rádio Difusora de Itapetininga).

Fora da música e dos escritórios, Norberto era um colecionador obstinado, deixando uma das coleções de selos mais ricas e completas de que se tem notícia.

Mesmo com tantas atribuições, ele nunca deixou de presentear o público com sua arte, sendo amplamente recordado pelas suas magníficas improvisações ao piano que embalavam as tardes e noites de eventos sociais e restaurantes locais, com destaque para o Restaurante Schrepel.

A partida de Norberto deixou um vazio imenso, mas gerou ondas profundas de admiração na comunidade. Em outubro de 1975, o radialista e amigo Caputti Sobrinho elaborou, de forma inteiramente independente, um primoroso documentário radiofônico estereofônico de mais de uma hora homenageando a vida e a obra musical do professor. A transmissão foi tão emocionante que levou amigos, músicos e ouvintes às lágrimas, resultando em um túmulo coberto de flores no dia seguinte como símbolo de profunda gratidão.

Norberto Amaral Bastos partiu deixando o exemplo de um grande artista e, acima de tudo, de um homem profundamente leal aos seus amigos, aos seus princípios e às suas raízes.

Carlos Pinto Neto é advogado, secretário da Academia Sorocabana de Letras, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), sócio do Gabinete de Leitura Sorocabano, presidente do Instituto Cultural "José Aleixo Irmão" (ICJAI) e diretor de relações institucionais da GIA - União Cultural.