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Vanderlei Testa

Figurinhas da Copa poderiam criar esperança para o Arthur viver

05 de Junho de 2026 às 22:35
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: CORTESIA)

Sonhar nunca é demais quando o objetivo é fazer o bem. A febre das figurinhas da Copa do Mundo se espalha pelo Brasil inteiro sem que exista, ao menos por enquanto, qualquer “remédio” capaz de conter essa saudável pandemia do futebol. Crianças, jovens e adultos mergulham na magia de completar álbuns, trocar repetidas e viver a expectativa de encontrar aquela figurinha rara que parece sempre faltar. Um remédio, no entanto, é possível para retardar o avanço da doença do menino Arthur.

Muitos talvez não saibam que os irmãos Giuseppe e Bruno Panini foram os responsáveis por transformar essa ideia das figurinhas de futebol em um fenômeno mundial. Em 1961, na cidade de Modena, na Itália, surgiu o que se tornaria uma das maiores referências editoriais do planeta em colecionáveis.

Em Sorocaba, a cena se repete com intensidade. Praças públicas, escolas, bancas de jornais e até espaços de shoppings transformaram-se em pontos de encontro para colecionadores. É bonito observar pais e filhos dividindo esse momento. Conversando com um deles, ouvi algo que traduz muito desse encanto: ele incentivava o filho a colecionar porque aquilo o fazia recordar a própria infância, trazendo memórias afetivas que o tempo não apagou.

As figurinhas possuem uma história de mais de 126 anos, com registros nos Estados Unidos e na Alemanha. Os chamados “cromos” eram colados em folhas com espaços específicos para cada imagem. Curiosamente, as primeiras coleções estavam ligadas a marcas de cigarros e atraíam principalmente adultos. Com o passar das décadas, o esporte assumiu o protagonismo e, há mais de meio século, o futebol tornou-se a grande paixão dos colecionadores.

Talvez a psicologia explique tamanho fascínio. Não é apenas a coleção em si; existe o prazer da conquista, da troca, do pertencimento, da expectativa e do sonho. Entretanto, esse entusiasmo também representa investimento. Para muitos pais, completar um álbum pode significar até mais de mil reais ao longo do processo.

A reflexão deste artigo não é uma crítica a quem coleciona, nem ao encantamento legítimo que o futebol desperta. O objetivo é apenas ampliar o olhar para algo que, muitas vezes, passa diante dos nossos olhos.

Há meses, Sorocaba acompanha campanhas, faixas e apelos em favor do pequeno Arthur, um menino de apenas seis anos que necessita de medicamentos de alto custo — (R$ 17 milhões), para continuar sua luta pela vida. Seus pais percorrem veículos de comunicação, escritórios, instituições e buscam, com a força do amor de pai e mãe, ajuda para salvar o filho que tem Distrofia Muscular de Duchenne, doença rara e degenerativa.

Ao observar essa realidade, veio-me uma reflexão simples: se uma parcela dos recursos investidos pelos pais em coleções de figurinhas também pudesse ser destinada a campanhas de solidariedade como a do Arthur, quantas histórias poderiam ganhar novos capítulos?

Não se trata de trocar alegria por obrigação, nem de colocar o lazer diante da culpa. Trata-se de lembrar que, ao lado das figurinhas que procuramos completar, existem vidas esperando uma oportunidade para continuar escrevendo a própria história.

Talvez uma das maiores coleções que possamos construir como sociedade não seja a de jogadores estampados em páginas coloridas, mas a de gestos capazes de mudar destinos.

Porque uma figurinha completa um álbum. Mas a solidariedade pode completar uma vida. E talvez, algum dia no futuro, muitos filhos se recordem com orgulho de pais que ensinaram uma lição ainda mais valiosa: que, em determinados momentos, trocar figurinhas pode ser divertido, mas trocar um gesto de amor por esperança pode transformar uma existência inteira.

Vanderlei Testa é jornalista e escritor.