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Vanessa Marconato Negrão

A contradição da Marginal Direita

16 de Maio de 2026 às 20:56
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Sou educadora na rede pública de Sorocaba há 18 anos, já vivi a rotina de muitas escolas, nas mais diversas ocupações. Sempre fui uma professora apaixonada, mas foi em 2018 quando li Léa Tiriba que descobri meu propósito maior na docência. Dezenas de grifos, centenas de citações, alguém estava olhando na mesma direção que eu.

Léa, nos seus escritos, com uma clareza desconcertante, nos convoca a reconhecer que a crise ambiental é, sobretudo, uma crise de relação: rompemos os vínculos entre seres humanos e natureza e passamos a organizar nossas cidades, escolas e modos de vida a partir dessa separação. Como consequência, formamos crianças afastadas do mundo natural, privadas de experiências fundamentais para o desenvolvimento sensível, ético e ecológico.

Essa ruptura não se expressa apenas nos currículos escolares ou nas rotinas emparedadas da educação infantil. Ela se materializa, de forma concreta e contundente, nas decisões urbanísticas que moldam o território.

No caso de Sorocaba, essa contradição torna-se evidente. Inserida em uma região de influência da Mata Atlântica, a cidade possui uma condição geográfica privilegiada, com potencial para integrar natureza, educação e vida urbana de forma exemplar. No entanto, ao invés de fortalecer essa relação, certas escolhas caminham no sentido oposto.

A proposta de construção da chamada Marginal Direita do rio Sorocaba é um exemplo emblemático desse desalinhamento. De acordo com o próprio documento técnico analisado, trata-se de uma obra que não apenas ignora os princípios contemporâneos de sustentabilidade urbana, mas que também agrava problemas ecológicos e climáticos já em curso.

Entre os impactos apontados, destaca-se a degradação dos ecossistemas aquáticos, com destruição de habitats e perda de biodiversidade, decorrentes da retirada da vegetação das margens do rio. Soma-se a isso a alteração do regime hídrico, causada pela impermeabilização do solo, que tende a aumentar o risco de enchentes, justamente em um cenário de intensificação de eventos climáticos extremos.

Ou seja, mais um trecho de asfalto, não apenas impacta o presente, mas compromete a capacidade futura da cidade de lidar com as mudanças climáticas. Além disso, o projeto favorece processos conhecidos e amplamente criticados no urbanismo contemporâneo: ocupação desordenada, perda de áreas verdes e aumento da vulnerabilidade urbana. Ao transformar as margens do rio (que deveriam ser áreas de preservação permanente) em eixos de circulação e expansão urbana, a cidade reforça uma lógica ultrapassada de enfrentamento da natureza, ao invés de construir formas de convivência com ela.

Essa escolha contrasta diretamente com o que se aponta como alternativa: o investimento em infraestrutura verde, como parques lineares, sistemas de drenagem sustentável e recuperação de áreas degradadas. Trata-se de soluções já adotadas por cidades como Curitiba, Medellín e Amsterdã, que compreenderam que rios urbanos não devem ser contidos ou explorados, mas integrados como elementos vivos da cidade.

É nesse ponto que a crítica se amplia: enquanto o mundo avança na construção de cidades resilientes, Sorocaba parece retomar modelos urbanísticos do passado, aqueles mesmos que hoje se mostram responsáveis por enchentes, ilhas de calor, perda de biodiversidade e empobrecimento da experiência urbana.

Essa contradição torna-se ainda mais evidente quando colocada ao lado de discursos de desenvolvimento ultrapassados. De um lado, projeta-se uma cidade espetacularizada, verticalizada e orientada por símbolos de progresso; de outro, negligenciam-se soluções básicas e urgentes de sustentabilidade e qualidade de vida.

À luz das ideias de Tiriba, esse cenário é profundamente preocupante. Se, como afirma a autora, o contato com a natureza é condição para que as crianças desenvolvam vínculos de cuidado com a vida, então cada decisão urbana que afasta a cidade de seus rios, de suas áreas verdes e de seus ecossistemas está também empobrecendo a infância.

Mais do que uma questão ambiental, trata-se de uma questão formativa. Ao substituir margens vivas por vias asfaltadas, ao trocar áreas de convivência ecológica por infraestrutura cinza, a cidade ensina — silenciosamente — que a natureza é obstáculo, não pertencimento.

Mas há outro caminho possível: preservar as áreas de proteção permanente, investir em educação ambiental, revitalizar a orla do rio e construir soluções baseadas na natureza. Essas escolhas não apenas aumentariam a resiliência urbana, mas também criariam oportunidades reais de reconexão entre crianças, comunidade e ambiente natural.

Diante disso, a contradição se explicita: como uma cidade ambientalmente privilegiada pode optar por projetos que fragilizam exatamente aquilo que constitui sua maior potência?

Responder a essa pergunta implica rever não apenas projetos específicos, mas o próprio modelo de cidade que se deseja construir e, sobretudo, o tipo de infância que se está disposto a sustentar.

Vanessa Marconato Negrão é professora da rede pública de Sorocaba há 18 anos, colaboradora deste jornal desde 2017 e pesquisadora das relações entre infância, educação ambiental e cidade.